A tragédia, as lições e o que fazer

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
28/08/2017 23:15

   

Até que a ponte Salvador-Itaparica esteja pronta, se é que um dia vai sair do papel, tragédias como a que vitimou 18 moradores da ilha poderão voltar a acontecer, a menos que as autoridades responsáveis adotem medidas extremas para evitá-las. Equipamentos ultrapassados, falta de obediências às normas de segurança e de rigor na suspensão do serviço, ao menor sinal de mau tempo são os primeiros pontos a serem superados.

"Se a caravela de Cabral ainda existisse, por certo estaria fazendo essa travessia" disse um morador de Mar Grande em meio ao desespero e a dor pela morte de quase duas dezenas de amigos e parentes. E esse é só o primeiro ponto da questão.

Técnicos em questões náuticas admitem que pelas condições de maré e por estar sujeita a rajadas de ventos vindas da entrada da Baía, as atuais lanchinhas deveriam ser substituídas por catamarãs, mais resistentes a essas intempéries.

Sejam catamarãs ou outro modelo qualquer de embarcação, o certo é que as velhas lanchinhas que fazem o percurso podem até encher de bucolismo a travessia em dias de sol forte e águas mansas, no verão, mas jamais se arriscarem com mau tempo.

Esse é o segundo ponto da questão. Cabe as autoridades navais o alerta a navegação e esse alerta, no caso de uma travessia que envolve tantas vidas e um serviço público, deveria ser transformado em autorização e suspensão do serviço.

Se o mar está minimamente agitado com ondas de mais de um metro - ou do limite de segurança previsto para o uso desse tipo de embarcação - a travessia deve ser suspensa e os infratores punidos, inclusive com a suspensão de operação do serviço.

A Capitania dos Portos deve agir com mais rigor e sem tolerância, afinal, dezenas de vida estão em jogo e não comporta arriscar. Tolerância zero, por mais que a suspensão do serviço venha a penalizar quem prefere as lanchinhas pela comodidade e praticidade, ainda mais para os moradores de Mar Grande ou que preferem desembarcar aos pés do Elevador Lacerda.

E por fim o terceiro ponto: a exigência de que os equipamentos de segurança estejam em bom estado de conservação, em local adequado, livres de qualquer embaraço para o seu manuseio. Se possível, exigindo que os usuários façam uso dos coletes salva-vidas durante o percurso.

Se a medida pode parecer um exagero, que autoridades e moradores sentem à mesa para discutir sua praticidade, afinal estamos falando de mais de uma centena de vidas expostos ao risco de uma nova tragédia, todos os dias.

E que nessa vistoria se certifique de que as janelas das embarcações estão vedando, para uso nos dias de chuva, criando-se um sistema de ventilação adequado na área interna das embarcações. Segundo relatos de sobreviventes, para se proteger da chuva já que as janelas não tinham vidro, os passageiros correram para o lado oposto da Cavalo Marinho I, levando a mesma a adernar. Se janelas existissem e vedassem, essa necessidade não existiria.

Enfim, buscar apenas culpados não basta. O que a Bahia cobra de suas autoridades é que medidas concretas sejam tomadas para que novas tragédias não voltem a acontecer. Que os próprios moradores e usuários do sistema se antecipem nos protestos como o de ontem, negando-se a usar as lanchinhas enquanto não se sentirem seguros.

E para tanto devem também estar dispostos a dar sua cota. Se  entre as medidas de segurança for exigido o uso de coletes salva-vidas, que todos se disponham a usá-los e a zelar pela sua manutenção. Que os alertas emitidos sejam seguidos e ninguém, entre os muitos atores envolvidos nessa questão, venha a tergiversar.

A Bahia não quer mais contar mortos e chorar a perda de filhos queridos. O mar da Bahia é para ser contemplado pela sua beleza, suas águas mansas e o visual da bela Salvador. E jamais se transformar num cemitério de inocentes crianças, pais, mães e avós.


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