Por: Raul Monteiro

ARTIGO: O silêncio da major sobre as agressões de Kannário


Tribuna da Bahia, Salvador
26/02/2020 22:56

   

O silêncio da major Denice Santiago, comandante da Ronda Maria da Penha, em relação às provocações do cantor e deputado federal Igor Kannário ao trabalho da PM durante o Carnaval é uma prova de que ela continua refém de seu status de militar, quando a campanha eleitoral já está nas ruas e, inclusive, indica seus favoritos. Ou a major Denice não teve uma oportunidade de ouro para se posicionar, mostrar a cara para a sociedade e ainda fazer uma boa média com sua corporação, onde, como disse recentemente o deputado Soldado Prisco, sua virtual candidatura foi vista com indiferença?

De fato, se já fosse uma candidata de verdade e tivesse decidido o que quer, além de como atuar, provavelmente a major não estaria mais sob as regras hierárquicas que impedem sua livre manifestação, podendo mostrar um pouco do que pensa principalmente para o PT, partido por onde deve concorrer à Prefeitura de Salvador por desejo do governador Rui Costa, que, exercendo o papel que lhe foi outorgado pela sociedade, pode se posicionar de forma contundente contra as agressões de Kannário, pedindo, corretamente, providências da parte da Procuradoria Geral do Estado contra o cantor.

Há quem diga, no entanto, que a major foi mais hábil do que se esperava, ao ficar calada sobre todo o episódio. Sabedora de que que a PM não gozaria do melhor conceito frente às classes menos favorecidas, o chamado povão, que tem no Carnaval talvez a sua mais expressiva e verdadeira fonte de divertimento durante o ano, ela teria preferido se calar, utilizando como argumento para o silêncio o fato de que ainda é uma policial militar e não uma postulante política na acepção plena da palavra, o que não deixa de ser a mais pura verdade.

Nesse particular, não agiu de forma diferente de nenhum dos demais pré-candidatos, inclusive do próprio PT, aparentemente mais interessados em fingir que não viram o que Kannário disse e fez, provavelmente de olho nos votos do chamado "gueto", do qual o cantor se diz o príncipe. Mas a condição de Denice é muito diferente da de todos eles. Ela não é uma civil, como os demais. Pelo contrário, carrega a marca da farda, obrigada a seguir as regras estritas da corporação, a qual cabe defender constitucionalmente, uma exigência que não afeta seus concorrentes.

As restrições impostas juridicamente a Denice agora não deixarão de acompanhá-la moralmente na hipótese de se tornar prefeita de Salvador. No exercício do cargo de prefeita que postura adotaria? De apoio à corporação, fortalecendo um movimento de militarização da política que assusta cada vez mais cientistas políticos, intelectuais e democratas de forma geral, ou à sociedade que a critica e exige que reveja seus conceitos e comportamento em relação aos mais pobres. Talvez Rui Costa, que é o mentor de sua candidatura, possa responder, enquanto a "candidata" está no quartel.


* Raul Monteiro é editor da coluna Raio Laser e do site Política Livre e escreve neste espaço às segundas e quintas-feiras.

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