Ponto de Vista: Faz de conta que o Brasil é um país

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
22/04/2021 21:06

   

Há 50 anos dou risadas com Woody Allen. Sua aparição é motivo para sorrir. “Temos” momentos hilários. Em “Autobiografia”, livro recentemente lançado, não foi diferente. Divertido, inteligente, sarcástico e... ressentido. De alguém magoado até as regiões abissais da alma. Conto de fadas do humor com final trágico, apesar das ponderações em contrário. Sua genialidade sucumbiu à suspeita de estupro, nos anos 1990, contra Dylan, filha adotiva dele e Mia Farrow, que, como Medeia, ignorou limites para puni-lo. Um abuso jamais provado. No livro, defendeu-se pela primeira vez, mas o glamour evaporou-se como éter. Antes, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Muito melhor.

O livro, que conta suas façanhas cinematográficas, performáticas e teatrais, somadas a um estilo de vida excêntrico, sugere que o celebrismo pode ser uma armadilha e a caretice norte-americana uma ameaça para quem pensa fora da caixa. Os dois fenômenos juntos, então, não poupariam nem o multifacetado “Zelig”. Imagine, Allen. Só faltaram os pregos para crucificá-lo. A nuvem nuclear que o escândalo deixou jamais dissipou. Aconteceu quando os EUA experimentavam seu período mais “TFP”. Cuidar da vida dos outros era esporte. E tirar casquinhas da via-crúcis do criador de “Bananas” significava ser politicamente correto. Ser um queridinho do “mainstream” conservador.

A colonização da América do Norte tinha tudo para consagrar uma nação. Espetáculo épico proporcional à saga de Moisés atravessando o deserto rumo à terra prometida. Comunidades cansadas de guerras e da perseguição Católica, na Europa, atravessaram o oceano para construir um novo mundo, fraterno e próspero. Não seria fácil. E não foi. Faltou combinar com os índios. A reação ao “invasor” mudou tudo. O “velho oeste” virou fortaleza, dando continuidade ao estigma europeu de violência, perseguições e expurgos. O estilo “Cavalaria” contaminou o DNA “ianque”. Resultado: de fraterno, quase nada; de prosperidade, quase tudo. Os EUA vivem do futuro.

Quem acabou cumprindo o ideal de sociedade fraterna e próspera foi o Canadá. Fácil? Não. Único país das Américas que não nasceu de uma revolução. Habilidade? Sim. O escritor Alberto Manguel, nascido na Argentina e educado na Europa, trocou a França pelo Canadá por uma razão poderosa: é o lugar em que as noções de direito cívico têm lógica. “Onde ser cidadão se traduz num sentido ativo como foi para os atenienses”, pontua. Autor de livros que defendem a palavra, a ideia e o livro, diz: “O Canadá não nasce do desejo de separar, mas do desejo de não separar”.

Canadá, França, EUA, independente do que vivenciem, são países que agem como países. E não “Banana’s Republic”. Respeitam-se. Nada os tira do rumo. É onde o respeito à Constituição e aos Cidadãos está acima de tudo e de todos. Dá para dizer o mesmo do Brasil? Você percebe que em nosso país há esse zelo? Por exemplo, quando lê-se nos jornais que a Procuradoria-Geral da República, que tem como papel constitucional defender a União – não governo -, negligencia essa missão em relação a atos do presidente, você entende que ela está defendendo o país ou não? É certo ou errado?

E você, qual é a sua? Um cidadão que reside num país ou numa república bananeira? Qual foi sua reação ao ver o presidente recomendando Cloroquina para combater o Covid e desqualificando a vacina como solução final contra a pandemia? Quando faz isso, o presidente mostra que sentimento pelo Brasil? Patriotismo não é. E o meio ambiente, é certo o governo deixar derrubar árvores da Amazônia? Para você, o Brasil é um país? Sim ou não? Pense nisso. Faça de conta que o Brasil é um país. Exija, insista, persista, resista. Dê o exemplo. Assim voltaremos a ser. Pleno. Real

Cláudio Pimentel é jornalista


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