Uma nova ordem ou déjà-vu?

Por Cláudio Pimentel*


Tribuna da Bahia, Salvador
25/02/2021 22:11

   

É o mundo que evolui ao longo do tempo ou somos nós? Há quem aposte nos dois. Duvido de ambos. Se olharmos gerações, épocas e fatos históricos, veremos que, se há evolução, não é plena, transparente, em linha reta, “ao infinito... e além”, como diria o entusiasmado super-herói de brinquedo “Buzz Lightyear”, de “Toy Story”. Não. É lenta, complexa, parto de implicações inimagináveis, deixando a sensação de déjà-vu. Será a farsa detectada por Karl Marx observando a repetição de eventos históricos? A imagem está mais afeita ao trem do Ferrorama, que gira em círculos, sem mirar horizontes. Um castigo mitológico.

Contra a vontade dos Deuses, o titã Prometheus deu ao homem o Fogo, abrindo o caminho das ciências e das artes à humanidade. Uma baita mudança. Foi penalizado: teria o fígado devorado – e regenerado - eternamente por uma águia. O nosso Ferrorama também carrega um castigo: parar, aleatoriamente, em imaginárias estações do Bem e do Mal. Entre elas, “Paz”, “Guerra”, “Prosperidade”, “Tirania”, “Revolução”, “Retrocesso” “Ignorância”, “Geopolítica”. A sobrevida que o Senado americano deu a Trump, no segundo impeachment, iguala-se ao voto alemão a Hitler. Sugere, por exemplo, que a atual geração encaminha-se para escolher a estação “Nova Ordem Mundial”. Será?

A absolvição de Trump – ressurgirá mais forte -, a rebeldia da população em preservar-se do vírus e a dificuldade política em equilibrar ações de saúde e de economia demonstram que o planeta entrou num beco de insensatos, clamando mudanças. A social democracia, base da prosperidade europeia, conta os dias. O capital internacional quer nova ordem. Trump é o timoneiro. E Bolsonaro, tosco como ele, um peão importante no tabuleiro geopolítico. É o capitão do mato de um celeiro com mão de obra quase escrava. A democracia liberal tornou-se inegociável. É defendida por quem melhor entende as minúcias do Banco Imobiliário.

A democracia liberal ou, seja lá, o que isso queira dizer é a cereja do capitalismo internacional. Não se conhece democracia de esquerda ou democracia socialista, mas, a cada época, os ideólogos conseguem criar marcas insinuantes para inovar o que é velho. Democracia liberal é a direita maquiada, que fecha instituições ou cala a imprensa com bazucas, bíblias e foras-das-leis para sobreviver. Defende a mudança, mas quer mudar para deixar do jeito que está. Convive sem constrangimentos com regimes ditatoriais. Deplora ideologias. “Nada é mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise”, diz Norberto Bobbio.

O esboço do mundo ideal já está pronto. A Nova Ordem prevê que EUA e Europa fiquem com a indústria de ponta, desenvolvendo tecnologias de mídia, informação, farmacêutica e espacial; China e Índia com trabalho e produção nas fábricas; e Brasil e assemelhados fornecendo commodities: minérios e alimentos. Um arranjo propenso a crises. Afinal, se Bolsonaro aceita colocar o Brasil no degrau mais baixo da divisão econômica mundial, espécie de série D do Brasileirão, isso não quer dizer que o brasileiro também deseje. O Brasil, mesmo que não se entenda, quer mudança. E não depender do primeiro mundo, mas ser.

Só há mudança quando há cuidado, consciência. A evolução continua centrada no indivíduo. O Brasil só precisa de políticos honestos, lideranças com visão e população instruída, sem lacaios. Chega de entreguistas que nos passam para trás desde o Brasil colônia. A principal mudança é ver a realidade de frente. Desejar a estação “Prosperidade”. Por que ser relegado à país extrativista? Onde está escrito que o nosso futuro é esse? O trem da vida é aquele que nos leva a nos diferenciar do outro. Sonhar grande é o nosso destino. Não de escravos no século XXI. Quem somos é decisão nossa.

*Cláudio Pimentel é jornalista


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