Cláudio Pimentel

Ponto de vista: A lei da gravidade e os loucos


Tribuna da Bahia, Salvador
30/10/2020 00:20

   

Entre as leis, a mais injusta não está no Hamurabi, Torá, Alcorão, Bíblia ou Código Penal, está na Física. É a lei da gravidade. E as razões são várias. A maioria poética. Imagine flutuar como anjos. Levitar feito magos. Ou pairar igual a gurus. A vida seria mais leve. E o mundo menos pesado. Parque de diversão superior à Disney. Divino, cósmico, mágico. Já que não nos deu asas, a natureza bem poderia ter nos dado esse dom. Relaxante. Antídoto contra tensões sociais, culturais, políticas. Afinal, o bélico é dispensável. O belo é que faz falta. Não passam de sonhos.

Desejo louco surge assim quando o horizonte desaparece. O nosso sumiu. Foi lockdown? Não, castigo que veio a jato. O psicanalista Rubem Alves temia ser considerado louco pelos leitores. Tudo em decorrência da quantidade de ideias malucas que sua mente vertia. Só acalmou a alma quando concluiu: quem pensa ideias loucas não é louco. E enumerou uma série de criadores de ideias, no mínimo, birutas. “Se sou louco vou para o hospício na companhia de pessoas muito interessantes”, animava-se. Cecília Meireles, por exemplo, teve a ideia louca de que seus olhos eram dois peixes que nadavam no fundo do mar.

Entre os loucos de Rubem, estavam o poeta T. S. Eliot, cujos olhos também nadavam no azul profundo; Dali e seus relógios moles, derretendo; e Drummond que se perdia em divagações sobre se Deus era canhoto. Para ele, única explicação para um mundo sinistro – o dos verdadeiros loucos, que gostam de armas, desprezam a vida e a natureza. Eu não sei. Rompi com Ele, em 1970, aos 10 anos. Incomodava-me a crença num Deus vigilante 24 horas. “Por quê?” - queria saber. Já era louco beleza na infância. A gota d’água transbordou no catecismo. Uma freira tornou-se a causa involuntária.

Jovem, bonita, descendente de alemães, era um anjo - em seu hábito - da asa quebrada. Aos domingos, assistíamos suas aulas sobre religião, Deus, Jesus, Espírito Santo, orações, pecado, perdão, catolicismo. O certificado de conclusão era receber a hóstia. E, para tanto, os alunos deveriam encontrar-se com o padre e confessar pecados cometidos. Foi quando tudo degringolou. “Que pecados?”, perguntei a ela, que arregalou seus quilométricos olhos azuis. “Qualquer coisa. Briga com os irmãos, desobediência com os pais”, sugeriu. “Mas não fiz nada disso”, aleguei. Insistiu que fosse assim. Fui perdoado mentindo no confessionário. A hóstia teve leve sabor amargo.

Meu melhor amigo à época era um japonesinho, cuja casa não tinha sinais de religião. Silenciosa, sóbria, sombria e muito limpa parecia um templo. Vá entender! A família esgueirava-se por ela. Como fantasma. Os pais e o avô, que escondia o corpo queimado usando roupas até o pescoço, eram feirantes. Vítimas da Segunda Guerra, pareciam traumatizados, assustadiços. Eu e meu amigo passávamos horas desenhando robôs, computadores e naves espaciais. Queríamos dominar o universo. Víamos revistas japonesas que pareciam listas telefônicas de tão grossas. Coloridas, como nunca visto, eram folheadas de trás para frente, repletas de mangás e colegiais de minissaias.

Os pais alemães da freirinha também fugiram da guerra. Percebi a coincidência, quando uma família de italianos, cujos patriarcas tiveram o mesmo destino, tornou-se nossa vizinha. Era 1971. Donos de bancas de jornais em São Paulo, aos domingos, descartavam as sobras na rua, as quais eu lia. Entre elas, o Pasquim. Mulheres sensuais, entrevistas irônicas, crônicas furiosas, charges hilariantes, máximas rascantes. Metralhadora giratória. Talento em falta hoje. Vi tudo naquelas páginas irreverentes, inovadoras. Com elas, jamais senti a falta de Deus. Foi exemplo de subversão à gravidade, à grave ditadura. Tornei-me jornalista ali. E, de quebra, ateu graças a Deus.


Cláudio Pimentel é jornalista.

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