A política como guerra

Por Claudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
29/04/2021 20:08

   

Há anos a política brasileira trocou a tribuna pela trincheira, quando os debates, acalorados, tornaram-se incendiários. Águias e raposas felpudas, que faziam a diferença parlamentar, deram lugar a predadores carentes de malícia e visão. Malta faminta por benesses, paparicos, músculos e disposição. Ilegítimos... até para associações à fauna. Hienas e urubus têm mais o que fazer. Tomaram o Brasil de assalto. E negam-se a devolvê-lo. O ex-presidente Fernando Henrique, no livro “Cartas a um jovem político”, pontua: “Políticos comuns existem aos milhares, os estadistas são bem poucos”. A última eleição foi além. Mostrou que estão quase extintos. Sucumbem à obscuridade.

A ausência de águias e raposas nos deu um Messias, em meio à inanição política. O felpudo senador ACM, se vivo, lembraria: “A ocasião faz o aliado”. O clima entre as forças conservadoras era de “melhor o Diabo ao PT”. E conseguiram. Sem Lula, preso, elegeram seu alter ego. Valeu-se de tudo. Mentiras, trapaças, ofensas. Era vencer ou vencer. Políticos, empresários, mídia e população fecharam os olhos e deram descarga. O esgoto transbordou. E surfando na onda, os ratos do golpismo miraram as instituições indóceis. A guerra política precisava de um ambiente propício a conspirações, boicotes, pressões e propagandas alienantes.

Eleito outrora presidente do Brasil com os mesmos aliados hoje do “Mito”, FHC – que considera um exagero o impeachment contra Bolsonaro - afiança que qualquer um pode ingressar e crescer na vida política, mas, ser estadista, não. O estadista é aquele que projeta o futuro do país, enxerga-o no contexto mundial e é capaz de conduzi-lo nessa direção. Ele e o “Mito” deveriam ler mais FHC. O ex-presidente, sobretudo. Emprestar prestígio a quem é comparado a genocidas históricos é negar o que escreveu. Metade das mortes por Covid seria evitada, não fosse ele, Bolsonaro, o presidente. Inaptidão radical para estadista.

A política clássica, cuja definição atravessa o tempo, exilou-se. O país rompeu com a tradição e flutua como formiga alada à luz de acordos. A maioria ruim. Vive-se agora o pior deles. O eleitor não reconhece mais o político que promove melhorias coletivas. Busca quem supra frustrações imateriais. Identifica-se com quem é contra ao que é contra. Seu senso é de vingança. Precisam punir quem defende homossexuais, aborto, fim do patriarcado, ascensão da mulher. Inspirados na inquisição, parodiam “Onde há um só senhor, que haja uma única religião” com “Onde há um só senhor, que haja uma única ideologia”. Fanáticos.

Diariamente, a política de terra arrasada, forjada sob o clima de guerra, amplia os erros de uma escolha eleitoral. É tragicômico ouvir de um general, ministro da Casa Civil, a confissão de ter se vacinado escondido do presidente. Sabujice. Ou o ministro da economia revelar-se mais reacionário que o “senhor” ao acusar, sem provas, a China, maior parceiro econômico do país, de ter inventado o Coronavírus. E ainda desqualificar sua vacina, que ele mesmo tomou. Idiota. Não merecem representar o Brasil. Integram uma quadrilha de inspiração fascista. São perigosos. A CPI do Covid colocará um basta à insensatez? Seria providencial.

O capital financeiro global faz parte dos desatinos governamentais. Seus representantes são capazes de sugerir ministros que pensem como grileiros, banqueiros, milicianos, bicheiros. É nomear presidiário para dirigir o presídio. Piada? Tão hilária quanto essa: “Quando assumi, quatro anos atrás, estávamos à beira do precipício. Desde então, demos um grande salto adiante” – Um dos presidentes do Brasil. Livro “Dualibi das Citações”, de Roberto Dualibi. Qual foi o presidente? Importa? O certo é que, se caiu ou saltou até o outro lado do precipício, sempre existirá quem opte por uma versão ou outra. Guerra política é assim. Sem pé, nem cabeça.

Cláudio Pimentel é jornalista

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