Desinformação e teatro

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
17/07/2019 09:52

   

Durante o período em que tramitou na Câmara dos Deputados, até ser aprovada em 1ª votação, a Reforma da Previdência, além dos acertos e desacertos que tal medida vai provocar, trouxe à tona uma habilidade que muitos deputados, principalmente os da chamada “resistência”, não aparentavam: a capacidade de dissimulação das informações, direcionando-as para os seus interesses eleitoreiros, e a teatralidade das ações.

Sempre com as atenções voltadas para os seus nichos eleitoreiros, os deputados usaram, até a exaustão, a capacidade de mistificação dos fatos, dramatizando aquilo que poderia ser simplesmente objetivo, e usando e abusando da retórica para defender seus argumentos. Entre xingamentos, exclamações até quase às lágrimas, e uma revolta que só se manifestava sempre quando os holofotes das audiências estavam ligados, eles protagonizaram não os debates que se esperavam, mas sim espetáculos, voltados para a plateia.

Na disputa pela dramatização, usou-se as figuras do trabalhador rural, e daqueles que exercem as atividades mais simples, como pedreiros, padeiros e empregadas domésticas para dar um ar de dramalhão ao espetáculo. E na defesa do universo feminino, esqueceu-se a questão do gênero em si, para fazer prevalecer a mulher negra, como prova inequívoca, na ótica teatral, de que a Previdência, além de ser perversa, é misógina e também racista.

Para fazer valer cada espetáculo, sempre de olho nas câmeras televisivas como aferidor de aceitação popular, deixou-se de lado as informações técnicas para se priorizar o lado político, como no caso do Benefício de Prestação Continuada (BPC), do cálculo previdenciário, e até mesmo do tempo de contribuição e idade limite. Com dados que não resistem à uma análise técnica, buscou-se a ameaça de que a partir da reforma, a aposentadoria em si poderia deixar de existir para milhões de brasileiros.

Muito menos afeito à teatralidade política e mais pautado nas ações com bases técnicas, o mercado financeiro reagiu de modo diverso ao posicionamento dos deputados, que acrescentaram ao espetáculo teatral,  pitadas de terror. Ao contrário destes que anteviam o apocalipse, deu sinais de que o cenário econômico, até agora em compasso de espera e, portanto, em estagnação, vai mudar.

Diferente dos últimos quatro meses, quando o País viveu a angústia de uma reforma que teimava em não acontecer há  mais de 20 anos, a aprovação do texto-base da Reforma da Previdência, e com seus apêndices em primeiro turno na Câmara dos Deputados, já redireciona as previsões para uma volta ao crescimento econômico.

De percentuais negativos de 0,05% (janeiro), 0,98% (Fevereiro), 0,28% (março) e 0,32% (abril), o nível de atividade da economia, medido pelo Banco Central (IBC–BR) apresentou crescimento de 0,54% no último mês de maio, já com bases nos primeiros sinais de que a Reforma da Previdência viria a ser aprovada. E mais significativo ainda é que o Ibovespa, o principal índice da Bolsa de Valores no Brasil, tem registrado, desde os resultados da votação na Câmara dos Deputados, movimentação acima dos 100 mil pontos.

O Mercado Financeiro, como um todo, é uma parte da Economia sensível às oscilações de humores dos gestores, incluindo aí o próprio Congresso, porque avalia riscos atuais e futuros das atividades de governos onde atua. E quando dispõe de bases sólidas para análises, avança, sem ser contaminado pelas ações teatrais que não produzem mais que fumaças  eleitoreiras de momento.


Adilson Fonseca é jornalista (adilson.0804@gmail.com)


Compartilhe