O ponto negro no quadro branco

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
07/08/2019 09:44

   

Certa vez um professor de Matemática entrou em uma sala de aula e começou a fazer as contas de multiplicar no quadro negro. Foi multiplicando o número nove por 2, por três, e foi seguindo a sequência. Quando chegou na multiplicação de 9x7, colocou como resultado 65. E antes mesmo que terminasse a sequência até 10, a sala estava toda em polvorosa, com risos, piadinhas e até algumas ofensas. Indagando o que acontecia, ouviu dos alunos que ele era burro, pois 9x7 era 63 e não 65.

Para surpresa dos alunos, o professor disse que sabia, mas que colocara o resultado de propósito, para ver como reagiam os alunos. E explicou: “toda a sequência está certa, exceto a 9x7. Mas vocês apenas viram esse erro e condenaram toda a operação, inclusive chamando o autor de burro. Todo o esforço para acertar a sequência foi em vão, por causa de um lapso. Da mesma forma como em um quadro branco, basta se colocar um pontinho preto para que esqueçamos que esse ponto representa a infinitésima parte do quadro, mas mesmo assim. será ele que prevalecerá nas nossas críticas”.

No próximo mês de setembro o Governo Federal vai permitir que todo trabalhador que tenha conta ativa do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) possa sacar R$ 500. E no aniversário de cada trabalhador, ele poderá sacar o valor anual do FGTS. Pode parecer pouco para quem detém uma conta com algumas dezenas de dígitos, mas para aquele que só vai ter a chance de usar esse dinheiro quando for demitido, ou quando se aposentar, essa antecipação representa muito.

Se se somar 80 milhões de trabalhadores, cada um sacando R$ 500, serão R$ 40 bilhões que serão injetados de imediato na economia. Dinheiro esse que não vai ser direcionado para grandes empreendimentos, no atacado, mas para o varejo do dia a dia das famílias, desde o pagamento das contas de água e luz que estavam atrasadas, ao material de construção para a pequena reforma na casa. E que, portanto, vai movimentar, na ponta, que é o consumo imediato de bens, toda a cadeia produtiva.

Da mesma forma que a liberação do FGTS, o Governo Federal fez a inauguração, na semana passada, de um trecho da BR-116 no Sul do País, e vem pavimentando trechos da Transamazônica e de rodovias em Goiás, que desde o período do Regime Militar não sabem o que é asfalto. A Economia, como um todo, ainda patina na recessão, mas depois de seis meses de bombardeio diário dos que querem uma solução milagrosa, ante o fracasso dos últimos anos, começa a dar sinais de que parou de afundar. São ações que na sequência, vão mostrando, que mesmo com equívocos que podem ser corrigidos, vão contribuindo para um resultado final acertado.

Para um País que estava acostumado a operar o Mercado de Ações (Bolsa de Valores e Dólar) na casa dos 75 mil pontos, nos últimos três meses se observou uma ascensão do mercado e atualmente a bolsa opera acima dos 100 mil pontos, um feito histórico na nossa economia. Da mesma forma histórico foi o patamar do juro de mercado (taxa Selic) que atingiu 6% e deve baixar até 5,75%, em um país que costumava operá-lo sempre acima dos dois dígitos. São acertos que passam despercebidos de boa parte dos brasileiros, mas que refletem a trajetória de esforços na busca do equilíbrio das contas.

Como numa sequência aritmética, pode-se errar. Mas todo erro pode ser consertado antes que se continue a sequência, sem que com isso sejam desprezados os acertos até então já realizados. Se em nome de um ponto fora da curva se desfazer de toda a estrada, será preciso começar do zero, paralisando todos os esforços já realizados. 

É o que tem acontecido com o Brasil atualmente. Não se valorizam os acertos, mas se exaltam os erros, esquecendo-se que os grandes avanços da sociedade, em todos os segmentos, se devem à descoberta de que os erros servem para mostrar-nos o caminho que nos levam aos acertos. E é o que tem sido feito nesses últimos meses.


* Adilson Fonsêca é Jornalista (adilson.0804@gmail.com) 


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