Uma facada nebulosa

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
10/09/2019 21:46

   

Em 1963, no auge da Guerra Fria, entre a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) liderada pelos Estados Unidos, e o Pacto de Varsóvia, formado pelos países do Leste Europeu, liderado pela antiga União Soviética, o presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy sofreu um atentado à bala que o matou. O 35º presidente do EUA foi ferido por disparos enquanto circulava no automóvel presidencial na Praça Dealey, em Dallas, no Estado do Texas.

Três investigações, incluindo FBI e CIA, foram realizadas, e duas concluíram que o autor foi Lee Harvey Oswald, um empregado do armazém Texas School Book Depository, agiu sozinho, e outra sugeriu que ele atuou com pelo menos um cúmplice. Até hoje existem teorias que apontam conspirações internacionais, por conta do clima da Guerra Fria, e a existência de indícios de que houve interferência de espiões estrangeiros no assassinato de Kennedy.

No Brasil, um crime aparentemente de fácil solução, pois o autor foi preso em flagrante, ainda está envolto em névoas e suspeitas. Depois de um ano - 06 de setembro de 2018 - do atentado à faca contra o então candidato e atual presidente Jair Bolsonaro, pouco se sabe, além de que o autor, preso momentos depois do atentado, Adélio Bispo dos Santos, teria agido sozinho e que sofre de transtornos mentais. Jair Bolsonaro foi alvo de um atentado durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG).

Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada, após ser preso, afirmou à Polícia Federal ter agido sozinho, após ouvir o que disse ser um chamado de Deus. Após periciado por uma equipe médica, o juiz do caso afirmou que Adélio tinha doença mental e, portanto, era inimputável. Com isso, sua prisão foi convertida em internação por tempo indeterminado, no presídio de Campo Grande (MS). A facada perfurou o intestino grosso, além de provocar três lesões no intestino delgado, e ainda atingiu uma veia do abdômen.

O diagnóstico de Adélio é de paranoia (Transtorno Delirante Persistente) que semelhante à esquizofrenia, se caracteriza pela presença de delírios. O indivíduo doente acredita que o mundo está contra ele, e age com base em seus próprios delírios. Contudo, a ação solitária de Adélio ganhou apoio de advogados. Os quatro advogados são dos mais renomados e caros escritórios de Belo Horizonte, e saíram em defesa de Adélio, sem que a PF soubesse até hoje quem bancou as custas processuais, inclusive os deslocamentos em aviões particulares de Belo Horizonte até Juiz de Fora.

Os advogados Zanone Manuelk de Oliveira Junior, Fernando Costa Oliveira, Marcelo Manoel da Costa e Pedro Augusto de Lima, não podem ter seu sigilo bancário e telefônico quebrados, por causa de um Mandado de Segurança impetrado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em um segundo inquérito ainda em andamento pela Polícia Federal, essas informações são consideradas cruciais para se saber a possível participação de terceiros no atentado.

Da mesma forma resta saber o porquê de no mesmo dia do atentado, o nome de Adélio Bispo aparecer em um registro de entrada na Câmara dos Deputados sem se saber, ao certo, para qual gabinete de parlamentares ele iria se dirigir. Questionado sobre o assunto, a Câmara diz que foi apenas engano do funcionário da recepção.


*Adilson Fonseca é Jornalista (adilson.0804@gmail.com)

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