A árdua tarefa da reconstrução

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
01/10/2019 23:25

   

Na última quinta-feira, uma manchete na Tribuna da Bahia, revelou que o risco Brasil caiu ao menor patamar dos últimos seis anos. Em meio à turbulência da repercussão do discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU e, do comportamento psicossomático do ex-Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, ameaçando matar um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o fato passou longe dos debates.

Contudo, essa como as notícias seguintes de que a taxa de desemprego recuou 0,7% e vem, pelo quarto mês consecutivo, numa trajetória de queda, e uma taxa de juros de 5,5% ao ano, a menor da história, também não mereceram maiores considerações. Ante um país arrasado do ponto de vista da confiança internacional, resultado de uma política de terra arrasada dos últimos anos, em que a corrupção se tornou a maior marca, o maior desafio está em recuperar a confiança e credibilidade, não apenas dos investidores, mas dos próprios brasileiros.

Na Segunda Guerra Mundial, primeiro em setembro de 1943, na Sicília Itália, e depois, em 06 de junho de 1944, na Normandia, França, a retomada da Europa, das mãos dos nazistas, foi precedida de uma política de destruição de toda a infraestrutura para dificultar ao máximo a ação dos exércitos aliados. Pontes, estradas, portos, poços de petróleo, tudo foi destruído no caminho que empurrava os alemães de volta até Berlim, e até a sua derrocada final, em maio de 1945.

Setenta e quatro anos depois, a Europa ainda tem sequelas, e reconstrói aquilo que foi destruído em apenas seis anos de guerra. Não apenas do ponto de vista estrutural, mas do ponto de vista social e cultural povos que compõem o mosaico de países do Velho Continente. Para construir uma sociedade contemporânea, que em parte foi erguida sob a bandeira da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade, foram necessários séculos, mas apenas seis anos para jogar tudo isso por terra. E a reconstrução é sempre mais demorada e dolorosa.

Guardando as devidas proporções históricas e geopolíticas, o Brasil de hoje é um país que procura reconstruir, não apenas valores de uma sociedade, que parecem ter se perdido nos últimos anos, mas, e principalmente, valores econômicos. Ao diagnosticar a situação e apresentar, na última Assembleia da ONU (Organização das Nações Unidas) um Novo Brasil, o presidente Jair Bolsonaro falava justamente das dificuldades em reconstruir valores diversos que foram destruídos ou solapados nos últimos anos.

A corrupção, que desviou dos cofres públicos cifras medidas em vários zeros à direita, não apenas revelou uma política de terra arrasada, por aqueles que estavam no comando da Nação, mas um efeito danoso que ainda vai levar vários para ser equacionado e revertido. Desemprego, infraestrutura, confiança interna e externa, e depreciação de valores sociais e culturais, que precisam ser recuperados, não apenas pelo atual governo, mas pelos governos subsequentes.

As estruturas socioeconômicas que foram erguidas a duras penas, desde o advento da redemocratização do País e da efetivação do Plano Real, ainda na década de 90, foram dinamitadas. Tais como as estruturas sociopolíticas e econômicas alemãs na Segunda Guerra Mundial, erguidas em nome de um projeto de poder, que ao se constatar que não iriam vigorar, foram destruídas para dificultar ao máximo a reconstrução pelo adversário.

Agora há a árdua tarefa de recuperar o tempo perdido. Tempo este que se reflete na impaciência dos que cobram resultados imediatos de uma recuperação de um país que teve seus alicerces socioeconômico político e cultural, destruídos pelos que estavam no comando da Nação. E é muito mais onerosa a reconstrução que a construção.


* Adilson Fonseca é Jornalista e escreve neste espaço sempre às quartas-feiras.


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