O Governo e o Estado

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
09/10/2019 08:09

   

Na maioria das vezes em que é lembrado, o ex-presidente Michel Temer tem como saldo, mais críticas negativas que elogios. Todos lembram do seu desastrado governo, com ministros denunciados por crimes de corrupção e ele próprio, tendo sido preso, em um desses episódios que nodoam a imagem de qualquer governante. E por ter sido o vice da ex-presidente Dilma Roussef, e que foi alçado à condição de Chefe da nação, por causa do impeachment de Dilma, em 2017.

Por isso muitos torceram o nariz quando o presidente Jair Bolsonaro fez um elogio, não ao cidadão-presidente Michel Temer, mas a um estadista, chefe de uma nação, presidente Michel Temer, quando este sancionou a Reforma Trabalhista. O elogio de Bolsonaro se deve ao fato de que a reforma foi um dos pilares que impediu a derrocada da economia e a escalada do desemprego, uma vez que criou mecanismos que permitiram a ascendência do trabalhador informal, com regras definidas no mercado.

Questionado acerca do elogio, o presidente foi cobrado sobre a realização de uma grande obra do seu governo. A resposta foi uma só: consertar o que foi mal feito e concluir as que foram abandonadas. Ali ele dava também uma explicação subtendida sobre o que é Governo e o que é Estado.

O Governo é uma posição temporária, ocupada por alguém de forma transitória, que pode ser renovada a cada quatro anos no Brasil, cinco nos estados Unidos. O seu gestor exerce as funções executivas, estabelece as políticas públicas e nomeia seus auxiliares. Já o Estado é uma função permanente, institucional, que reflete as características do Governo de cada período. É a Constituição, que representa o conjunto de leis e diretrizes que determinam os rumos de um País.

Ao elogiar uma ação de governo do ex-presidente Michel Temer, Bolsonaro se posicionou como Estado, da mesma forma que ao afirmar que sua grande obra seria dar continuidade àquelas ações que podem dar certos, e corrigir equívocos, deixou de lado o personalismo para se posicionar com a institucionalidade que a sua função de Chefe de Governo exige.

Na maioria das vezes o gestor público procura deixar sua marca e não dá continuidade ao trabalho do seu antecessor, como se isso fosse um demérito. O personalismo faz com que realizações positivas de um governante anterior sejam destruídas para que sejam soerguidas com uma nova estrutura, que retrate a marca do novo ocupante do cargo. E com isso gasta-se recursos desnecessários e perde-se todo o aprendizado.

No Brasil, cada presidente procurou deixar sua marca. As últimas delas, estruturantes como as Ferrovias Norte Sul e a Transposição do Rio São Francisco, ou sociais como Bolsa Família e a Reforma Agrária, têm equívocos e falhas que devem e estão sendo corrigidas. Nada mais natural para o novo ocupante do governo dar uma feição de Estado, em vez do personalismo que costuma caracterizar os governantes.

Na história de povos e nações, a continuidade de ações é que permite o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das relações, sem que sejam inviabilizadas novas ações. Dar prosseguimento aos trabalhos iniciados por antecessores, corrigindo equívocos e falhas que porventura sejam identificadas, adequando-os às novas necessidades e estruturas e, somente quando inviáveis, refazê-los por completo, se tornam grandes obras.

Um governo dura, em média,no Brasil, quatro anos, no máximo o dobro disso, quando seu gestor é reconduzido ao cargo. Mas um Estado dura décadas e pode ter sucessivos governos, enquanto existir como instituição de um povo, como uma nação.


* Adilson Fonseca é Jornalista e escreve neste espaço sempre às quartas-feiras – adilson.0804@gmail.com


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