Autoestima ideológica

Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
15/10/2019 22:11

   

A autoestima é a qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra confiança em seus atos e julgamentos. Mesmo quando erra, procura corrigir as falhas e valoriza o esforço do aprimoramento seu e de quem assim procede, quer seja na conduta pessoal, quer seja na defesa do interesse coletivo da sociedade, da qual faz parte.

O brasileiro politizado tem um jeito peculiar de exercitar sua autoestima. Não no aspecto pessoal, mas no que tange a valores coletivos, como a sua nacionalidade ou o seu país. E o faz ao sabor do estadista de plantão, movido por uma ideologia que lhe permite abraçar ou não esses valores, sempre de acordo com o seu momento ideológico.

Difícil imaginar um norte americano, inglês, alemão ou mesmo um francês, falando mal do seu país, quando se encontra no exterior. E muito menos corroborando críticas que venham a ser feitas por estadistas de outras nações. Esses países normalmente têm um regime político-partidário, polarizado entre republicanos e democratas, conservadores e trabalhistas, esquerda e direita, e têm disputas internas acirradas. Mas quando se trata de defender seus valores, deixam de lado seus individualismos políticos e defendem o interesse comum.

No Brasil, as disputas político-partidárias extrapolam as fronteiras geográficas, eo país é mais criticado por estrangeiros do que pelos próprios brasileiros. Normalmente são por quem não vive a nossa realidade do cotidiano, e muito menos sabe dos esforços que vêm sendo feitos há várias décadas, no intuito de deixarmos de ser uma “república de bananas” e nos inserirmos na comunidade internacional. E não se vê uma defesa dos interesses dos próprios brasileiros, que endossam as críticas, mesmo quando estas não encontram respaldos na realidade em que vivemos, e são motivadas apenas por motivos ideológicos.

Nos últimos meses, ao sabor das ideologias, quaisquer atos que o Brasil protagoniza no exterior, não encontram respaldo de parte dos brasileiros, mesmo quando se está em jogo o próprio País, e não o seu governante. No individualismo das paixões políticas, se se permite que governantes de países como EmannuelMacron (França) e Angela Merkel (Alemanha), ou até mesmo o ditador Nicolas Maduro (Venezuela), ditem as regras de como o Brasil deva ser governado.

Agora o episódio mais recente é a entrada ou não do Brasil na OCDE - Organização para a Cooperação e DesenvolvimentoEconómico, que teria como apoiador um dos seus fundadores os Estados Unidos (os outros são Inglatera, França e Alemanha). O fato dos EUA anunciaram que apoiam a entrada da Argentina e Romênia, deixando o Brasil na fila, foi comemorado como se fosse um gol. Mesmo se sabendo que o processo apenas foi adiado, porque os dois países já tinham tido a sinalizaçãonorte amaericana do esse apoio, antes mesmo do Brasil.

A OCDE foi criada em 1948, na política do pós-guerra e é composta pelos 35 países mais ricos, que aceitam os princípios da democracia e da economia de mercado, de acordo com os as regras da economia internas e dos mercados internacionais. É quase que um mercado comum, onde seus membros se beneficiam de regras únicas.

O que os EUA fizeram agora foi simplesmente cumprirem um acordo já feito anteriormente ao Brasil, com a Argentina e com a Romênia. O Brasil vem em seguida. Mas para parte dos brasileiros, conta muito mais o revés momentâneo, que os prejuízos que tal adiamento possa causar ao país.  O que seria motivo de frustração, dos que pensam realmente no país, virou comemoração dos que são movidos unicamente pela ideologia, e que só se auto valorizam quando os seus interesses se adequam às suas crenças.


*Adilson Fonseca é jornalista e escreve nesse espaço sempre às quartas-feiras.

(adilson.0804@gmail.com)

 


Compartilhe