Alienista, alienados e alienígenas

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
23/09/2021 23:25

   

O que faz uma pessoa comer pipocas sempre que vai ao psicanalista? Ou, então, quando desembarca num aeroporto e sempre corre para pedir um suco de acerola? Não há respostas certas ou erradas. São reflexos do inconsciente. Eu diria que a pipoca lembra cinema, que lembra sonhos, que é matéria-prima em sessões de psicanálise, onde busca-se finais felizes. E a acerola? Uma resposta à overdose de azul que o passageiro é exposto no céu. A acerola vem da terra, é de um vermelho que grita e tem sabor que desperta. Antítese do azul. Desembarcar vivo é o desejo da maioria que viaja. O curioso é notar como o alimento está associado às nossas angústias, aos nossos medos. A pandemia, a crise econômica e a anomia no país ameaçam nos engolir.

Lembro-me de uma experiência meio parecida na adolescência. Nos anos 1970, próximo à casa de meus pais, havia um parque de diversão, cujo autofalante tocava músicas que me marcaram. Em meio aos explosivos “Creedence”, “Doobie Brothers” e “Rolling Stones” quatro outras músicas nunca mais saíram da minha mente. E tudo pela tristeza de suas melodias. Eram sempre as mais tocadas: “Mother”, de John Lennon; “Father and son”, de Cat Stevens; “He ain't heavy, he's my brother”, dos Hollies; e “Help”, dos Beatles. Só depois de adulto, percebi que o conjunto sugeria algo profundo do ponto de vista psicológico, que machucava quem cuidava da trilha sonora. Assim supus. Tratavam da mãe que abandonou o filho; do pai que incentiva ir à luta; do irmão que se sente desrespeitado; da falta de amor. O “DJ” tinha consciência? Jamais fui àquele parque. Apenas o ouço.

O cotidiano está cheio de exemplos assim, os quais poderíamos classificar de mistérios da alma, que você faz ou se vê envolvido sem perceber que é o próprio protagonista e autor. E, se desconfia que é algo que vem do interior, reage: “Acho que estou ficando louco”. Não está. O autoconhecimento pode ser uma loucura, mas jamais será prova de que alguém esteja enlouquecendo. Só surpreende. O teatro e a literatura, e depois o cinema, foram os primeiros a investigar problemáticas mais complexas da condição humana, que não estaria restrita apenas à consciência, mas à inconsciência. Coisas que alguns até chamam de sexto-sentido, intuição ou premonição. Termos imprecisos.

“O Alienista”, de Machado de Assis, apesar da loucura que ronda o conto, esbarra, por meio do humor, metáforas e inverossimilhança proposital, nessa condição. Imagine uma cidade, Itaguaí, no Rio de Janeiro, em que quatro quintos da população é recolhida a um “asilo de loucos”, a Casa Verde, por motivos subjetivos. Situação que se estabelece a partir da ação enérgica e ensandecida do Dr. Simão Bacamarte, o alienista - médico que cuida de patologias mentais -, que enclausura todos aqueles que, por exemplo, ouviriam músicas tristes, comeriam pipocas antes das consultas ou experimentariam sucos após participarem de eventos que causam medo, como viajar de avião. Esquisitos, não é?

Você acredita no ditado “Cada povo tem o governo que merece”? Eu não. Fica melhor assim: “Cada povo aprende com o governo que pensava merecer, e muda”. Por mais que seja alertado, o eleitor vota em quem lhe foi mais convincente. É resultado não apenas do consciente, mas do inconsciente. Eu acredito que o brasileiro, depois de tantos exemplos de despreparo, desatino e abandono, não merece o governo que está aí. Mas o que fazer? Aguardar a hora de mudar. Foi assim nos EUA. É a democracia. Se adotássemos a solução do alienista, um quinto dos brasileiros, os que ainda apoiam o presidente, seria encaminhado a uma casa de orates. E com razão. Depois da visita à Nova York, então, quando a comitiva que comia pizza com as mãos, na calçada, parecia de alienígenas, não ficaria um “doido” mais babando no “cercadinho”. Babariam no asilo. Não existem cataplasmas para alienados.

*Cláudio Pimentel é jornalista

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