Ponto de Vista: O ator, o astronauta e o aleatório

Por Cláudio Pimentel*


Tribuna da Bahia, Salvador
14/10/2021 21:21

   

O norte-americano Leonard Mlodinow (1954) se diz fruto do acaso. Doutor em Física, por Berkeley, ele acredita que nasceu por pura sorte duas vezes, o que o levou a fazer estudos e pesquisas sobre fenômenos aleatórios, a partir de algum padrão que cientistas pudessem prever ou explicar com suas equações matemáticas. Foi professor do Instituto de Tecnologia da Califórnia, mas notabilizou-se escrevendo para televisão. “Star Trek – Next Generation” e “MacGyver” estão entre os programas mais famosos. Antes escreveu os livros “Uma nova história do tempo”, com o cosmólogo britânico Stephen Hawking, “A janela de Euclides” e o “Arco-íris de Feynman”. 

Em “O andar do bêbado” (2009), editora Zahar, ele trata dos princípios que governam o acaso, do desenvolvimento dessas ideias e da maneira pela qual elas atuam em política, negócios, esportes e outras áreas da atividade humana. Loucura? Oportunismo? Nem um pouco. É bom lembrar que, antes de mergulhar nessa viagem, o matemático John Nash Jr., ganhador do Prêmio Nobel (Economia) de 1994, já tinha legitimado esses estudos com o trabalho sobre “A teoria dos jogos”, cujas lições ainda circulam apenas no meio acadêmico. Nash foi caracterizado pelo ator Russell Crowe, em “Uma mente brilhante” (2001), de Ron Howard, ganhador do Oscar de melhor filme. 

Não sou religioso, supersticioso ou místico, mas todas essas lembranças vieram até mim depois de uma notícia para lá de aleatória: o passeio espacial de um personagem que viajou aos mais distantes lugares do Universo e nunca tinha flutuado no espaço: o icônico Capitão Kirk, encenado pelo ator William Shatner, comandante da não menos icônica “Enterprise”, das aventuras de “Star Trek”. Vê-lo aos 90 anos, jovial, feliz e concentrado na viagem, mesmo que rápida, só podia ser coisa do aleatório. O mais fanático fã de Kirk jamais imaginaria que o ídolo pudesse cumprir um dia tal destino. Nem ele. O destino tem planos. Só não combina com a gente. 

O que ocorreu a Shatner é semelhante ao destino de Mlodinow. Ele conta que o pai o advertiu que a vida não podia ser explicada apenas por equações matemáticas: “Às vezes ocorrem coisas que não podem ser previstas”. Contou ao filho que no campo de concentração nazista de “Buchenwald”, onde ficou preso, sentia tanta fome que acabou roubando um pão da padaria. O padeiro pediu à Gestapo que reunisse os suspeitos para identificar o ladrão. E disse aos guardas que fuzilassem um por um até que estivessem mortos ou até que alguém confessasse. O pai se entregou na hora. Em vez de fuzilá-lo, porém, o padeiro deu-lhe um emprego de assistente. 

O pai de Mlodinow resumiu o caso como um lance de sorte. “Não teve nada a ver com você, mas se o desfecho fosse diferente, você nunca teria nascido”, disse. O físico chegou à mesma conclusão, pois o pai já tinha perdido mulher e dois filhos pequenos, mortos no campo de concentração. A guerra acabou, seu pai saiu da Polônia para os EUA, casou-se de novo e teve três filhos. Vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento na Scolastic Inc., Mlodinow sempre lembra que estava por puro acaso no World Trade Center na hora dos ataques de 11 Setembro e, por puro acaso, também sobreviveu. Nasceu de novo. 

O cientista explica que as pessoas, frequentemente, empregam processos intuitivos ao fazerem avaliações e escolhas em situações de incerteza. Tais processos deram ao homem uma vantagem evolutiva, como, por exemplo, saber se uma Onça está feliz por nos ver como amigo ou refeição. Saber a diferença poupa uma vida, a nossa. Estar diante de situações assim não é raro. A intuição é como o ar que respiramos. Sequer percebemos. Mas deveríamos. Se, por um lado, Kirk de ator virou astronauta, por outro, Marcos Ponte, ministro da Ciência, de astronauta virou ator. Encenou ao chefe uma queixa contra o corte de R$ 600 milhões destinados à pasta. Para um governo negacionista, seria uma evolução, mas jamais um acaso. É bola jogada ao alto para o presidente chutar em gol. As eleições chegaram. E votar não é um ato aleatório. Ninguém é amigo da Onça. 

*Cláudio Pimentel é jornalista 

 

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