Artigo: Imbróglio entre PSD e PP na Assembleia expõe governador Rui Costa

Por Raul Monteiro*


Tribuna da Bahia, Salvador
06/01/2021 21:58

   

O governador Rui Costa (PT) parece ter se metido numa camisa de sete varas no episódio da disputa pela presidência da Assembleia Legislativa da Bahia, uma arenga que ainda vai se arrastar pelo menos por um mês até a data em que os deputados finalmente se reunirão para escolher, pelo voto em plenário, o sucessor do atual presidente, Nelson Leal (PP). Pelo que confirmou a jornalistas, de fato, Rui avalizou um acordo pelo qual o PP deveria apoiar o PSD para a sucessão de Leal, mas o acerto, depois de contestado pelo primeiro partido, ao que se constata, entrou pelo ralo.

A disputa teria um contorno mais simples se não colocasse em campos opostos os dois principais parceiros políticos do PT no Estado - o vice-governador João Leão, dirigente máximo do PP, e o senador Otto Alencar, presidente estadual do PSD. Otto não aceita o argumento de Leão de que o cenário mudou, inclusive por causa da pandemia, motivo porque ao PP deveria ser dada a oportunidade de suceder Leal, que promoveu uma gestão saneadora na Casa reconhecida por Rui. Por esta razão, o líder do PSD reivindica o cumprimento do acordo, alegando que foi avalizado pelo governador baiano.

Mas, independentemente da pressão exercida pelos dois caciques em favor de suas próprias teses e da disputa em que ambos voluntariamente já se colocaram, com repercussões para o ano da sucessão estadual, de 2022, em que é certo que estarão em uma das duas chapas majoritárias que concorrerão - a do governo ou a da oposição -, quem acabou colocado na posição mais delicada é o governador. Talvez por inexperiência ou pela prosaica falta de intimidade com a política, Rui deixou-se enredar numa situação que, em tese, caberia apenas a dois partidos adultos e vacinados da base dirimir.

Agora, é a autoridade dele que está em xeque, independentemente da posição que venha a tomar. A bem da verdade, da exigência original de que fizesse prevalecer o acordo, o que em tese o levaria a obrigar o PP a acatar o acerto, as legendas evoluíram para uma outra demanda, na qual se dividem entre um pedido para que ele mantenha a neutralidade ou entre em campo por um dos candidatos, no caso Adolfo Menezes, do PSD, por quem tem, de fato, manifesta preferência. O que os que exigem seu envolvimento na disputa não podem desconsiderar, no entanto, é, primeiro, que os dois partidos são igualmente da base.

E, segundo, que ele comporta uma incongruência, qual seja, a de participação do governador numa decisão que cabe a um Poder independente, com o qual a convivência do executivo deve ser harmônica e, portanto, respeitosa. Além disso, falta ao governador o que seria a motivação principal para ingressar na disputa, o que o implica no risco de se desentender com o parceiro contra o qual se voltar na eleição ao Legislativo: o principal adversário de Adolfo, Niltinho, apresentado pelo PP, não é um deputado da oposição. Mais uma prova de que Rui se meteu numa baita trapalhada.

* Raul Monteiro é editor da coluna Raio Laser e do site Política Livre e escreve neste espaço às quintas-feiras.


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