Artigo: O Capitólio e o Reichstag

Por João Augusto Gama


Tribuna da Bahia, Salvador
10/01/2021 20:42

   

Em fevereiro de 1933 os  nazistas incendiaram  Reichstag, o parlamento alemão em Berlin, e arrumaram um holandês comunista, que apresentava sinais claros de perturbação mental para assumir a culpa. Hitler, recém-empossado como chanceler, pediu ao decrépito presidente Von Hindenburg poderes especiais para combater a ameaça comunista. Pedido feito poderes concedidos. Foi o início da era mais macabra da história alemã e, pouco tempo depois, do mundo. Judeus, negros, ciganos, homossexuais foram assassinados. O mundo nunca passou por tamanha barbárie. A história é bastante conhecida.

Oitenta e sete anos depois vimos a tragicomédia se repetir. A defeituosa democracia americana, a maior democracia do mundo, ameaçada por Hitler sem bigode. Irresponsavelmente, o presidente Trump, em fim de mandato, alegando uma fraude que ele nunca provou, sem querer entregar o poder, incentivou uma horda descontrolada a provocar, a incendiar o Capitólio, o parlamento americano. Uma sessão conjunta do congresso americano foi interrompida, senadores e deputados foram retirados às pressas, gabinetes invadidos e depredados. Jamais a história americana registrou uma cena tão comum na história da América Central e na do Sul. Em 1981, há quarenta anos, um patético coronel Tejero invadiu o parlamento espanhol tentando impedir a eleição de Calvo-Sotelo como presidente do governo da Espanha. A democracia venceu. O golpe fracassou. O rei Juan Carlos II vestiu a farda de general para defender a  jovem democracia espanhola.

Ontem em Washington foi diferente. Assistimos um homem que foi derrotado nas urnas, com uma diferença de sete milhões de votos, alegando fraude nas eleições, incentivando o golpe de estado. A turba enlouquecida invadiria o Capitólio e, amedrontados e temendo por suas próprias vidas, não certificariam a vitória de Joe Biden.

Trump não contou com a resistência do parlamento americano. As forças armadas se mantiveram distantes do cenário da tragicomédia e a polícia cumpriu o seu papel. Os invasores foram retirados. A sessão legislativa pode prosseguir pela madrugada certificando a vitória de Biden.

Foi um golpe fracassado, mas de todas as maneiras, foi um golpe. A América pode sentir como se arma um golpe de estado. A América que, ao longo da sua história foi protagonista ou coadjuvante de  golpes de estado em outros países como Honduras, Nicarágua e Brasil viu no seu país uma clara tentativa de golpe de estado.

Em 1964, no Brasil o presidente do senado Auro Moura Andrade declarou vago o cargo de presidente da república, com o presidente João Goulart ainda no Brasil, sob os protestos de Tancredo Neves, e momentos depois deu posse como presidente da república a Ranieri Mazili. Estava começando a ditadura brasileira de 21 anos.

As ditaduras começam sempre com a derrubada do poder legislativo. Foi o que Trump tentou. Lembrem-se que Júlio César foi assassinado no senado romano.

João Augusto Gama

Advogado, Empresario, foi prefeito de Aracaju.

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