ARTIGO: O egoísmo e as “carteiradas”

Por Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
29/12/2020 22:42

   

Dizem os postulados religiosos e filosóficos, que o egoísmo é a grande chaga da humanidade. Dele derivam todos os demais sentimentos negativos, como a vaidade, o orgulho (que se confunde com amor próprio), o preconceito e a discriminação. Satisfaz-se primeiro os interesses individuais e de grupos afins, mesmo que para tal, sejam prejudicados os interesses coletivos. E com isso discrimina-se, segrega-se e se ensoberbece, por julgar o egoísta que é dono de privilégios que só a ele cabe.

O egoísmo se manifesta de forma individual ou coletivo, nas naturezas políticas, religiosas e ideológicas e sociais. E é exercido nas atitudes dos líderes e gestores, atendendo sempre aos seus interesses individuais, mesmo quando se manifesta através de ações de e para grupos específicos. No atual quadro da pandemia do coronavírus no Brasil (Covid-19), ele é exacerbado nas pretensões e decisões dos gestores públicos, dos líderes políticos e até mesmo do Poder Judiciário.

No recente pedido do Supremo Tribunal Federal (STF) para ter a preferência na vacinação contra o coronavírus, está configurado o egoísmo corporativo. A famosa “carteirada” do STF é justamente aquela ação em que o cidadão ou instituição se prevalece do status quo que possui e tenta atropelar o direito coletivo. Aplica-se ai a máxima popular do “farinha pouca o meu pirão primeiro”.

Da mesma forma que prefeitos e governadores, de municípios e estados mais aquinhoados financeiramente, numa ação do “salve-se quem puder”, ignoram os demais brasileiros e buscam ter o privilégio de vacinarem suas respectivas populações, atendendo a interesses políticos dos respectivos gestores. Com o poder econômico que dispõem, ignoram os demais estados e municípios pequenos, sem recursos e poder de barganha, para, de forma a prevalecer o privilégio egoístico, serem os primeiros da fila de vacinação.

De forma quase constante, o egoísmo reveste o homem de certo grau de cinismo, e no caso da pandemia do coronavírus, ele se manifesta cercado de privilégios, quando se diz, peremptoriamente “fique em casa!”, ... mas desde que se mantenha nas ruas e no trabalho o entregador de pizzas e outros deliveries, para que satisfaça suas necessidades e despensas cheias, esquecendo-se que estes podem se contaminar, mas sua cerveja e alimentos devem manter-se em atividade. “Faça o que digo mas não faça o que faço”, é a máxima que prevalece.

Nas ações egoísticas que cada indivíduo, instituição ou gestores públicos tentam dar no processo de vacinação, esquecem que o Brasil possui 215 milhões de habitantes espalhados em 27 unidades da federação, que por sua vez somam 5.570 municípios. A grande maioria não dispõe do poder da “carteirada” política ou econômica para furar a fila da vacinação, e por isso mesmo, só podem ser tratadas igualitariamente através do processo da universalização das ações de saúde, mediante a coordenação do Sistema Único de Saúde (SUS), que possui representação em todas as localidades do Brasil, e por isso mesmo, é quem pode realizar o processo de vacinação sem o uso da “carteirada” de políticos e gestores públicos.

A Constituição Brasileira, promulgada em 1º de outubro de 1988, estabelece a igualdade dos direitos do cidadão brasileiro e aos que aqui residem, através do seu Artigo 5º, que é uma cláusula pétrea, e, portanto, não pode ser modificado. "Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”.

Estabelecer privilégios, como vem tentando fazer governadores, prefeitos, e membros do Poder Judiciário, sem atender aos requisitos da urgência e riscos à vida, mas apenas com base no poder econômico e político, é a vivência do egoísmo individual que se manifesta no coletivo, criando castas de privilégios e de interesses que se sobrepõe aos demais direitos.

** “O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição, a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme, a maledicência, são para a alma, ervas venenosas das quais é preciso a cada dia arrancar algumas hastes e que têm como contraveneno: a caridade e a humildade”. 

Alan Kardec - Pseudônimo de Hippolyte Leon Denizard Rivail (1804 - 1869), foi o codificador do Espiritismo. Foi educador, escritor e tradutor francês.


* Adilson Fonseca é Jornalista e escreve neste espaço às quartas-feiras

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