Artigo: Tomara que o pesadelo deste 2021 chegue logo ao fim

Por Paulo Roberto Sampaio*


Tribuna da Bahia, Salvador
04/05/2021 01:21

   

1968 foi o ano que não terminou, imortalizado na obra do escritor e jornalista Zuenir Ventura, participante e estudioso do conturbado período da história brasileira e do mundo, retratado em estilo jornalístico, ainda que com uma clara simpatia a um viés de esquerda.

2021 para mim é o ano que torço para chegar logo ao fim, para acabar essa tortura pelas preciosas doses de vacina que significam ao menos um alento para milhões de brasileiros, uma esperança a quem é obrigado a arriscar a vida dia após dia no transporte público, no ir e vir ao trabalho, isso para os bem-aventurados, que têm um emprego, mesmo munido de uma armadura de pano ou algumas gotas de álcool em gel, afinal o inimigo pode estar ao lado, pronto a contaminar no primeiro vacilo.

Ano de médicos e enfermeiros feito heróis, aliás, desde 2020, mas extenuados por uma batalha desumana e desigual, que lhes consome dias e noites, finais de semana sem a família, debruçados sobre leitos de agonia, a ouvir histórias de uma vida, últimos sussurros de quem não pôde se despedir do filho, da mulher, do irmão, da mãe. Histórias dramáticas de famílias despedaçadas, muitas vezes em uma semana ou nem isso.

O drama das contadas doses de vacinas, que se arrasta a caminho do meio do ano, parece não ter fim. Drama maior ainda para os que não integrarem um dos tais grupos de risco e por conta disso foram deserdados, esquecidos, condenados a adoecer pela Covid e rezar para não morrer entubado num leito de UTI, isso quando conseguido, ou acabar com transtornos psicológicos ou mentais, conseqüências dessa agonia,

Mas esse 2021 tem mais. Muita coisa ruim mais. É um ano que separa cada vez mais irmãos brasileiros, nascidos filhos deste solo, mas desunidos por paixões políticas, a trocar insultos, ofensas, a transbordar divergências em confrontos odiosos que nada lembram a pátria amada chamada Brasil.

Brasil, de amor eterno que sempre teve por símbolo a paz no futuro, e a celebrar unido as glórias no passado, mas que se olha rancoroso, como se fôssemos duas nações de distintos ideais. A democracia a ser celebrada pelo voto livre nas urnas, elegendo seu presidente, parece não valer nada.  A cada gesto do seu mandatário maior há uma crítica, um reparo, alguns até merecidos, mas como se os acertos não devessem ser reconhecidos.

Protestos e atos de defesa ganham as ruas quando deveriam se unir em torno de uma só bandeira, o pavilhão nacional. Os brados que deveriam defender as reformas tão ansiadas, a cobrar celeridade do Congresso nas votações e menos filigranas da Suprema Corte acabam fugindo de tom.

No último dia 1º de maio, manifestantes foram às ruas em várias capitais e cidades brasileiras a demonstrar que o apoio ao presidente Jair Bolsonaro segue intocável e, diria mesmo, numa crescente. O brado “Eu autorizo, presidente” foi uma resposta ao chefe do Executivo, que disse que aguardava "uma sinalização" dos brasileiros para "tomar providências" contra medidas de restrição de circulação decretadas por governadores e prefeitos contra a covid-19.

Ok que uma parcela da população assim pense e externe esse seu sentimento indo às ruas, daí,queiram ou não os que discordam, a mensagem deve ser respeitada. Há, efetivamente, quem discorde das restrições de circulação. se são 100% eficazes e no Brasil elas são sinônimo de estagnação na economia e mais desemprego.

Mas quando o mesmo “Eu autorizo, presidente” é usado em defesa de ações antidemocráticas, para pedir intervenção militar, aí acho que sobe demais o tom da manifestação e neste caso, me surpreende que, unanimemente, todos os participantes engrossem o coro nesse sentido, em especial muitos que lutaram ou ao menos testemunharam a luta pela democracia no país. Essa sim deve ser a bandeira de todos os brasileiros, independente da coloração partidária.

*Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna e escreve neste espaço às terças-feiras.

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