Barroso cola na justiça, Bolsonaro ronda Trump

Por Vitor Hugo Soares*


Tribuna da Bahia, Salvador
06/08/2021 21:48

   

Um aspecto se eleva no embate conduzido com firmeza de princípios, notório saber jurídico e elegância, pelo ministro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso e parte relevante do Judiciário e da sociedade, em defesa de eleições democráticas, limpas e confiáveis. Garantidas pelas urnas eletrônicas – de votos auditáveis e até aqui à prova de fraudes –, em contraste com a bandeira desvairada do retorno ao atraso do voto impresso, de nefasta e fraudulenta memória no Brasil. Com ranços do tempo dos “coronéis” do mando e dos pleitos de mapas eleitorais produzidos “a bico de pena” de vergonhoso passado.

Seja qual for o resultado do choque ficará a marca histórica da postura do magistrado do Supremo Tribunal Federal, no duelo de valores com o atual dono do mando políticos e de seus interesses próprios e familiares, ou de facções políticas próximas e aliadas que cercam e sustentam o dono do poder da vez no Planalto, em campanha aberta para permanecer por lá depois de 2022.

Para contextualizar os fatos, retorno à leitura e citação de “Rompendo o Cerco” – pronunciamentos, idéias, frases e ações da resistência de Ulysses Guimarães à ditadura.Livro de cabeceira, cujo exemplar, com honrosa e generosa dedicatória, recebi das mãos do autor, em visita a Salvador, depois do episódio histórico dos cães açulados contra ele, e deu origem à publicação – que eu cobri pela sucursal do Jornal do Brasil. Lá está o Decálogo do Estadista, cujo quarto mandamento é CARÁTER. E cai com perfeição sobre a figura do ministro que conduz o Tribunal Superior Eleitoral.

Diz o enunciado do decálogo de Ulysses: CARÁTER -  “Na conceituação de Milton Campos, o estadista tem “a posição de suas idéias e não as idéias de sua posição”. Não é um oportunista, o que se serve da política em lugar de servi-la, o que só pensa nas eleições futuras e não no futuro do País. Há “democratas” tão furiosos na oposição quão intolerantes no governo. Político de caráter é fiel – às idéias, não à carreira. Pode perder o poder, o emprego, a liberdade, mas não renega as idéias, não perde a vergonha. Quem por medo se retrata não é estadista”, diz o mand amento, que  assenta sob medida no ministro Barroso neste duelo de posturas que abala o país e mexe com os nervos da sociedade.

O embate público descontrola ainda mais o já descompensado mandatário, jogado às cordas pela CPI da Covid-19 – que desfaz a impostura do combate à corrupção, por seu governo –, e pela crescente queda de prestígio pessoal e de confiabilidade de sua gestão, nas pesquisas de opinião, precisando entregar anéis, dedos e braços ao Centrão para ter proteção na Câmara e no Senado. Bolsonaro recebeu ainda, nesta semana, golpes certeiros, na nota pública de reação às suas investidas  antidemocráticas, contidas na ameaça de que, “sem voto impresso não haverá eleições em 2022”, assinada por Barroso e nomes de peso e estatura do judiciário.Mais dura ainda, a fala do presidente do STF, Luis Fux, suspendendo a reunião de representantes dos três poderes da República, em razão dos reiterados ataques do mandatários a membros do STF. Ainda assim, o ocupante do Alvorada esperneia e lança sinais de que tentará  uma saída a lá Trump. Não se sabe como nem quando a sandice se dará, a deduzir pelos outdoors em defesa do voto impresso, em Governador Valadares (MG), nos quais aparece a figura do ex-presidente derrotado nos EUA. Aí mora o perigo, ou a desgraça de Bolsonaro.

*Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br        


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