Bolsonaristas neutralizam efeito da CPI nas redes sociais

Por Paulo Roberto Sampaio*


Tribuna da Bahia, Salvador
31/05/2021 22:37

   

Se há um fato irrefutável e inquestionável nesse Brasil que chora a cada dia algo em torno de 2 mil mortos pela pandemia é a supremacia bolsonarista nas redes sociais. É o caminho da sobrevivência, sabiamente buscado por sua tropa de choque, ante um verdadeiro massacre da mídia impressa e televisiva, sem precedente na história recente do país.

Nem Dilma apanhou tanto na sua fase pré-impeachment, e por falta de uma estratégia que explorasse essa ferramenta ou por seu público não ser alinhado a esses recursos, não soube reagir, sucumbindo fragorosamente ante a opinião pública, ante os escândalos e mais escândalos de corrupção no seu entorno. Mas esse enfrentamento digital hoje traz um elemento relevante: os bolsonaristas  estão vencendo a disputa sobre a CPI nas redes e com boa folga.

No momento em que as pesquisas de opinião mostram Bolsonaro perdendo apoio popular, algo a ser aferido lá adiante porque não é exatamente isso que se vê nas ruas, ao menos junto a um eleitorado cativo e fiel, que já deu mostras que não o abandonará mesmo com todos os seus pecados – o maior deles a falta de vacinas – consolidam-se como instrumento de combate as poderosas redes sociais.

Assim, a CPI, que dominada pela oposição, a revelar aos montes equívocos do governo, deveria levar o presidente às cordas, como se pugilista fosse, parece não abalar seu prestígio. Ele surpreendentemente se mantém de pé, sem acusar os golpes, por mais duros que sejam, apoiado no seu exército, esse sem farda, mas com enorme poder de mobilização.  E os números estão aí, segundo os últimos levantamentos do efeito da investigação entre os senhores senadores junto a opinião pública, fruto do desempenho dos bolsonaristas nas redes sociais.

Se tomamos a semana que terminou (de segunda a sexta-feira, do dia 24 ao 28 de maio) e filtrarmos pela palavra-chave CPI, trabalho a que se deu o analista Pablo Ortellado, os bolsonaristas tiveram um desempenho bem superior ao da oposição. Tiveram no coletivo e, naturalmente, conseguiram com esse trabalho, estancar qualquer sangria que se imaginava fatal para o presidente, até entre os seus.

No Facebook, por exemplo, entre os posts de páginas com a palavra-chave CPI, os bolsonaristas fizeram 80% dos compartilhamentos no dia 24. No dia seguinte, o número praticamente se manteve estável, indo para 78%, caindo para 66%  no dia 26, voltando a subir no dia 27 para 73%, recuando no dia 28 para 61%, marca mais que folgada de domínio nesta rede.

No Twitter, se medirmos os volumes de retuítes com a palavra-chave CPI, os bolsonaristas fizeram 94% dos retuítes no dia 24, recuando para 88% no dia 25, caindo para 75% no dia 26, indo a 63 % no dia 27 e voltando a crescer no dia 28, quando chegou a74%. Em resumo, como mostra o levantamento, as redes dão um alívio para o presidente.

Quem acompanha a CPI pela imprensa tem a clara impressão de um massacre dos oposicionistas, que o negacionismo do governo vem sendo desmascarado e por aí vai, tudo por conta da imprevidência na compra das vacinas, preferindo o governo apostar em tratamentos alternativos.

Mas é como mudando um canal. Desligou a TV e foi para a troca de zaps, essa alimentada com um impressionante apetite pelos aliados bolsonaristas, a realidade e os números soam diferentes. A culpa sai do colo do presidente e pousa no dos gananciosos executivos das multinacionais que teriam tentado empurrar contratos com cláusulas leoninas, sem ao menos o parecer final da Anvisa.

Fato é que o duelo segue ferrenho e quem esperava uma catástrofe para o presidente nesta CPI, as redes trataram de minimizar o estrago, mantendo a tropa de choque unida e pronta a sustentar qualquer discussão sobre pandemia, vacina, cloroquina, ivermectina e coisas tais.

Isso  enquanto no campo político os aliados tratam de blindar o presidente, que por sua vez se desdobra em medidas populistas para neutralizar os ataques do outro lado, como isentar os motociclistas do pagamento de pedágio nas estradas.

Aguardemos os próximos passos, até porque o sucesso até aqui da estratégia governista não significa que o jogo está ganho. Mas, mesmo que perca, não vai ser de goleada e há quem aposte num empate suado, com sabor de vitória para Bolsonaro e aliados.

*Paulo Roberto Sampaio é diretor  de Redação da Tribuna e escreve neste espaço às terças-feiras


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