Boulos, a "saia" de Lula e o conselho de Mainardi

Por Vitor Hugo Soares*


Tribuna da Bahia, Salvador
04/06/2021 21:03

   

Antes de ter o pescoço ceifado e a cabeça entregue a prêmio (no melhor sentido da mitologia dos celtas) ao advogado Antonio Carlos (Kakay) e aos donos dos cordéis que movem o poder no judiciário nacional – no altar dos sacrifícios do programa Manhattan Conection, na TV Cultura –, o sempre polêmico jornalista Diogo Mainardi parece ter conseguido plantar a idéia que começa  germinar no discurso e ações de Guilherme Boulos, que obteve em São Paulo, os primeiros frutos no grande protesto contra o governo do presidente Jair Bolsonaro, o M29, que alcançou o País de ponta a ponta e teve seu momento apoteótico na Avenida Paulista. O fato sinaliza, para este jornalista, que Boulos decidiu testar pra valer a dica de Mainardi , oferecida na sua penúltima participação no programa ancorado por Lucas Mendes: “Você tem brilho próprio e é limpo. Saia debaixo da saia de Lula e seja você mesmo o candidato da esquerda em 2022".

"É preciso contextualizar o fato jornalístico para mais fácil e necessário entendimento do leitor ou ouvinte", recomendava o falecido editor nacional do Jornal do Brasil, Juarez Bahia, mestre de teoria e pratica da Comunicação de várias gerações de profissionais de imprensa do País. Sugestão essencial neste caso explosivo e delicado, principalmente quanto ao desfecho muitos decibéis acima do tom, do embate Mainardi x Kakay, que resultou na saída de Diogo, "para não sacrificar o futuro do Manhattan Connection", como escreveu o jornalista em seu pedido de demissão, no qual agradece os companheiros de 17 anos de programa – Lucas, Caio, Pedro e Angélica – e renova o xingamento a Kakay. Pedro Andrade também saiu do programa solidário com o colega.

Na entrevista de Boulos, que dividiu o tempo de conversas com a atriz Cristiani Torloni, o clima também esquentou no terreiro do âncora mineiro, em NY. O hábil e inteligente presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dirigente nacional do PSOl deu respostas elegantes, democráticas e bem humoradas, às questões mais incendiárias e provocativas do antagonista entrevistador. Mainardi fez pesadas críticas ao ex-presidente Lula – que encabeça as pesquisas para enfrentar Bolsonaro nas eleições de 2022, pela “esquerda”– e sugeriu ao entrevistado "sair debaixo da saia de Lula" e buscar caminho próprio na disputa.

Mas Boulos, na hora, não engoliu a "isca" e desarmou o jornalista: "Você, Diogo, tem uma verdadeira obsessão pelo Lula. Cada frase, você fala cinco, seis vezes o nome dele”. A partir daí quebrou-se o gelo que parecia conduzir a conversa para um choque verbal violento (a exemplo do embate com o egocêntrico Kakay, na semana seguinte).

E voltamos a Juarez Bahia, do começo deste artigo. Em seu referencial “Dicionário do Jornalismo Brasileiro” ele assinala que os padrões do noticiário privilegiam a entrevista, principalmente nos meios áudio-visuais, dando-lhe uma essencialidade na comunicação de massa. Mas alerta: “Os maiores riscos da entrevista estão na dissimulação e na fabulação. Como diz Edgar Morin, a entrevista se fundamenta na fonte mais rica e duvidosa: a palavra.” Na mosca! Vejam os efeitos da condutora e decisiva presença de Guilherme Boulos na organização e discursos, do protesto contra o governo do presidente Bolsonaro, na capital paulista e no resto do País, com repercussões políticas que embaralham o jogo nas esquerdas. A conferir.

*Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.E-mail: vitors.h@uol.com.br


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