Brasil, uma ameaça global

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
25/03/2021 23:06

   

O tempo é um companheiro inseparável da vida. Amigo, se soubermos lê-lo. Inimigo, se negligenciado. Caminharmos juntos, passo a passo, é o ideal. Pensamentos como faróis. Lembranças no retrovisor. Simples assim. A nós, cabe apenas as escolhas rumo ao destino certo. O do Brasil, porém, tornou-se errático: de país do futuro a ameaça sanitária global. Nau infecta dos insensatos. Cloaca política. O Covid está nos matando moralmente. Viramos um continental campo de concentração de leprosos bíblicos. Párias entregues à sorte. Agarrados à nostalgia: das coisas vividas e das coisas não vividas. O futuro apagou-se. O que fazer? Resistir ou desistir?

Há um ano, quando a pandemia foi anunciada, ao som das trombetas do apocalipse, o clima era de esperança. A união venceria a ameaça e, ao fim, um povo sobranceiro se ergueria para cumprir seu destino de grande nação. A urgência do fazer não nos excluiria do “novo normal”. Mais um capítulo em nossa saga tropical. Mesmo em meio ao caos, havia otimismo. Mas a ganância e a estupidez maquiavelicamente se sobrepuseram. As classes dirigentes sucumbiram à pungente e simplória “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Quebrou-nos todos. No leme, um negacionista emaranhava-se nos próprios fantasmas. Boicotava a ciência promovendo cloroquina.

A acusação de laboratório de mutações do Covid é grave para o país. O descontrole sobre a doença e o ambiente fértil para a proliferação de moléstias políticas e virais existem. As duas se misturam. À primeira, voto consciente. À outra, ciência. O temor do mundo é que a promiscuidade a céu aberto gere um “supervírus” capaz de tornar obsoletas as novas e modernas vacinas. Exagero? Quem nos conhece sabe que não. Há séculos, apesar de restrita à Amazônia, a “Febre Amarela” campeia. Em 40 anos, a “Dengue” martiriza centros urbanos. “Zica” e “Chikungunya” proliferaram-se na esteira dos descasos criminosos.

O Brasil dorme entre sonhos sombrios e pesadelos coloridos. Ficou em branco a esperada mudança comportamental das pessoas. Faltou-nos as armas da astúcia e da determinação. E sobrou-nos os ataques da ignorância orgulhosa. A lavagem cerebral prevaleceu. O arrivismo venceu. Nossa elite cabocla encantou-se com os olhos azuis do capital verde. Mudanças aqui só serão críveis quando o céu tingir-se de vermelho, a cor da prosperidade, entoa a mítica China. Enquanto nos deslumbramos com a paleta de cores, o mundo prepara-se para o renascimento. Estocam tudo: alimentos, combustíveis, armas. Os preços explodem nos supermercados. O país da fezinha esvai-se. Amaldiçoa-se.

Com as vacinas, cidades e empresas organizam-se para o início do fim da pandemia. Encontrarão um mundo em transformação urbana, social e econômica. O “novo normal” é uma revolução sem precedentes. Algo que o comunismo não ousou pensar. As democracias estarão mais fragilizadas. As guerras, próximas. O nazismo surgiu do “crash” de 1929. A pandemia é o “crash”. Especula-se que mais de 70 por cento das pessoas, que trabalhavam em escritórios, perderão os empregos ou assumirão o “home office”. Aglomerações serão regulamentadas. Salários cairão. Negócios encolherão. A informalidade será clandestina. Bairros fantasmas surgirão. A pobreza aumentará. Apenas flashs. Há mais.

Enquanto as mudanças devastam economias, o Brasil, que ainda discute “kit cloroquina”, desdenha da máscara e descumpre isolamento, nem percebe estar sendo alijado do “novo normal” mundial. Com médias altas de mortes diárias, o país dá motivos para que as grandes nações nos afastem do convívio universal. E nos veja como ameaça à saúde do planeta. Não é delírio. O Iraque foi bombardeado por desenvolver supostas bombas químicas. E nós estamos desenvolvendo bombas mutantes virais. Os economistas de poderosas corporações acordaram para os riscos. E fizeram barulho. Mas já era tarde. O Albert Einstein já havia lotado. Agora é SUS!

*Cláudio Pimentel é jornalista


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