Tensões inquietantes

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
20/06/2019 09:24

   

Aos queridos sobrinhos Ciça e Goesinho!

Se não houver uma interrupção no modo como as coisas caminham, o Presidente Bolsonaro intensifica, ainda mais, o seu ingresso na História, como um político que fez o que nenhum outro conseguiu, ainda que por razões contraditórias, com resultados antípodas. Somando-se à sua eleição espetacular para a Presidência da República, contra a maior aglutinação de forças midiáticas, partidárias e econômicas que já se viu em nosso País, impressiona a celeridade do declínio de seu prestígio junto aos seus apoiadores, exclusivamente pela sequência de tiros no pé que ele próprio e um dos seus filhos desferem, desnecessariamente, a cada dia. É como se o Presidente estivesse enfarado por não ter uma oposição minimamente preocupante e pratica atos formais, sem importância maior, que a população confunde com conteúdo. Apesar de serem coisas distintas, a forma influencia grandemente na percepção do conteúdo, como sabem as mulheres, os chefes de cozinha e os publicitários. 

O quadro atual remete a uma das mais conhecidas fábulas de Esopo, aquela em que, quando escravizado, seu Senhor lhe ordenou ir à feira e de lá trazer tudo o que houvesse de melhor. Esopo voltou com os alforjes cheios de língua, de toda natureza. “Por que só trouxeste línguas, Esopo”, perguntou-lhe o amo. “Porque tudo que há de mais belo e construtivo entre os homens, Senhor, é produzido pela língua que constrói as mensagens mais produtivas, a poesia e as expressões de concórdia, de afeto e de amor”. De outra feita, o Senhor, um homem voltado para a reflexão filosófica, ordenou-lhe: “Vá à feira e de lá me traga o que houver de pior, Esopo”. O fabulista retornou com sua montaria transbordante, de novo, de línguas de toda natureza. “Parece que não entendeste minha ordem, Esopo. Trouxeste o que no teu entendimento é a melhor coisa do mundo, enquanto eu te pedi que me trouxesse o que há de pior”! “Acontece, Senhor, que a língua é, igualmente, a pior coisa do mundo, porque semeia o desentendimento, a desagregação, a discórdia, o ódio, a guerra”. Em si mesmas, as palavras proferidas pela nossa língua têm um significado autônomo daquele que lhes emprestamos. Serão boas ou más, a depender de nossas intenções, da forma e do momento em que as proferimos.

A supervalorização do escritor Olavo de Carvalho passou a representar enorme passivo político para o Presidente. Como Marilena Chauí, a guru do marxismo, Olavo demonstra que ensandeceu depois dos setenta. Ambos, ele e Chaui, tiveram mais sorte do que Nietszche que perdeu o juízo aos quarenta e cinco anos. Como se encontram hoje, dou um pelo outro e não peço troco.

O que estamos assistindo é que o desassombro e a transparência de atitudes, algumas temerárias, que levaram Jair Bolsonaro à curul do poder, agora impendem sobre sua cabeça como um fator de grande potencial de desestabilização de seu governo, do que se aproveita uma oposição anética que não vacilará em lançar o País a pique, desde que isso lhe permita retornar ao poder para continuar a pilhagem que nos conduziu à brutal crise econômica que atravessamos, com treze milhões de desempregados, sem contar cerca de vinte milhões que chegaram à maioridade sem nunca ter ocupado um posto de trabalho. Na prática, portanto, a postura que levou à vitória, na campanha eleitoral, revela-se desastrosa para o ofício de governar. Tanto é que cresce o número dos que passam a falar contra o Governo, saídos das hostes dos que botaram o rabo entre as pernas, diante da vulcânica vitória do Capitão.

No interesse do avanço da instalação de um governo liberal, convém ao Presidente preservar-se, ao máximo, de polêmicas secundárias, ao abordar temas menores, de modo a assegurar a aprovação, num primeiro instante, das reformas previdenciária e penal, esta última sob o comando do impávido Sérgio Moro, para, em seguida, virem as demais, como a tributária, a educacional e a política. Seria de bom alvitre mandar instalar, em todas as salas da cúpula governamental, a começar pela Presidência, o insuperável conselho de Goethe: “O maior de todos os erros é permitir que as coisas menores impeçam a realização das maiores”.

Parece não haver dúvidas sobre a justeza da demissão do presidente do BNDES, Joaquim Levy, tendo em vista sua relutância em se adaptar ao espírito essencialmente anti-petista do Presidente, consoante compromisso eleitoral. Tanto é que velhos funcionários do Banco estão se articulando para não deixarem que se abra a Caixa-preta nele existente para abrigar sua utilização em favor de interesses particulares escusos e de países bolivarianos, com o compromisso de votarem por uma vaga para o Brasil, no Conselho de Segurança da ONU, a ser ocupada por Lula, como é do conhecimento geral. Vão quebrar a cara. O modo inadequado, porém, como foi feita a demissão de Joaquim Levy revelou-se prejudicial à imagem do Presidente. 

O provérbio árabe que ensina que “a palavra é prata e o silêncio é ouro” atravessa impávido o espaço e o tempo. A observância da prudência loquaz que encarna seria a melhor das receitas a ser observada, neste momento, por aquele que se elegeu com o maior número de votos na história do Brasil.


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