Um cochilo diplomático

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
23/10/2019 20:54

   

Para a querida amiga Maria Rita Lopes Pontes, admirável sucessora da tia Santa Irmã Dulce!

A recente solenidade de canonização de Irmã Dulce (Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes -26/5/1914-13/3/1992), o Anjo Bom da Bahia, foi, sem dúvida, um acontecimento sensivelmente contributivo para elevar a autoestima do povo brasileiro, momentaneamente unido em torno de um necessário propósito comum, num instante de tão agudo e preocupante divisionismo ideológico que perturba a boa convivência entre pessoas das mesmas famílias e grupos sociais.

Aos observadores mais experientes, porém, não passou despercebida a perda da oportunidade para melhorarmos a imagem internacional do Brasil, em geral, e da Bahia, em particular, tendo em vista a afortunada circunstância de ser Salvador o berço natal da tão amada Santa Dulce Mãe dos Pobres, cidade mãe do Brasil a respeito da qual o Santo pontífice nada disse do muito que teria a dizer, de um modo que elevasse o prestígio de nossa terra aos olhos do mundo, num momento em que nossa economia declina, sobretudo na área do turismo, setor em que a Bahia já representou uma grande força dentro do País. Relativamente à origem dos demais santos canonizados juntamente com Irmã Dulce, o Papa teve, invariavelmente, uma palavra de simpatia, como se viu com o teólogo e cardeal inglês John Henry Newman, a italiana Giuseppina Vannini, a indiana Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan e a catequista leiga, suíça, Marguerite Bays.

Pela natureza espiritual de sua missão, o Papa é, sem dúvida, entre os chefes de Estado, aquele que dispõe da mais competente assessoria para fundamentar as sempre cautelosas manifestações do Santo Pontífice, invariavelmente precedidas de sucessivas filtragens, ainda que, no caso do Papa Francisco, como temos visto, sua marcante espontaneidade em muito contribui para a elevação do seu prestígio aos olhos de toda a Humanidade. Tanto que na solenidade de canonização de Irmã Dulce, no texto da homilia, o Papa citou frases do santo inglês John Newman e da santa suíça Marguerite Bays. Nada de Irmã Dulce. No improviso, aludiu ao presidente italiano e ao Príncipe Charles, presbiteriano, silenciando quanto à ostensiva presença ali do nosso vice-presidente Hamilton Mourão, quando o grupo brasileiro era o maior de todos, até pela singularidade de termos poucos santos, apesar de formarmos a maior nação católica do Planeta. É elementar que em casos dessa natureza, e com todo o tempo disponível, dever-se-ia citar algo de cada um dos santos ou silenciar sobre todos, o mesmo relativamente à menção dos chefes de Estado. Fica evidente no episódio que a assessoria papalina falhou de modo primário e desnecessário, fato que mereceu reparos dos muitos brasileiros presentes à solenidade. O argumento sustentado por alguns de que a postura do Papa representou uma censura passiva ao Presidente Bolsonaro, por excessivamente primário, não pode ser albergado por mentes minimamente lúcidas, uma vez que, acima de tudo, o assunto interessa à população brasileira, majoritariamente, cristã e católica. O brilhante protagonismo, na solenidade de Canonização, dos sucessores de Irmã Dulce, Maria Rita e Ângelo Sá, mitigou a frustração dos baianos.

O episódio parece ter resultado de uma tendência humana de acreditar que iniciativas de interesse coletivo devem caber a outrem que não nós próprios. Terá sido por isso que o clero brasileiro, o segmento mais experiente na matéria, nada fez para evitar o silêncio constrangedor? E o que dizer da diplomacia oficial? Que bom teria sido se da Bahia, estado que perde protagonismo, tivesse nascido o intempestivo apelo do tipo: “Santo Padre, não deixe de aludir aos elementos fascinantes de que dispõe a Bahia, estado que tem como capital a cidade do Salvador, debruçada sobre a mais bela baía do mundo, denominada de Todos os Santos, e descoberta por Américo Vespúcio, cartógrafo que deu nome ao continente americano”.

Que figure o episódio como uma lição a ser aprendida: não devemos delegar, por comodidade, as ações de que nossa felicidade depende.


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