Agnosticismo e fé

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
17/10/2019 08:44

   

Para Marion e Ivanise, amigas da mais remota infância!

Como tantas ocorrências da existência humana, a morte súbita do filho do meu melhor amigo, ora enfermo, precisamente no instante em que cheguei à sua casa para visitá-lo, na última sexta-feira, figura como mais um episódio do campo do insondável. Está para sempre gravado em minha mente nosso esforço comum para manter vivo o administrador e advogado Carlos Benedito Santana Carvalhal, eu, aplicando-lhe massagem no coração e o pai, cambaleante, fazendo um esforço hercúleo para extrair dos seus débeis pulmões o ar necessário para a respiração boca a boca que aplicava no agonizante e amado herdeiro. 

O mistério residiria no fato de se tratar de um filho único, tão aguardado, quando chegou, amado e mimado até o último suspiro, aos 46 anos e oito meses, e de ser eu a pessoa em quem o casal Helena e George Nogueira Carvalhal mais confia, em razão de um relacionamento afetivo que nunca esmaeceu, ao longo de setenta e cinco anos já completados, coisa cada vez mais rara no espaço e no tempo. Somos amigos inseparáveis desde a mais tenra infância. Com George partilhei da festa generalizada, no dia 08/05/1945, dia da rendição dos alemães e italianos, pondo fim à parte substancial da Segunda Guerra Mundial, embora nossa alegria tenha decorrido do imprevisto, ainda que bem vindo, encerramento das aulas. Só uma vez divergimos, quando, a partir dos quinze anos, minha interpretação do mundo me conduziu para o agnosticismo e ele, para sua sorte, manteve-se fiel à crença no Deus de sua fé, único recurso que o conforta neste momento de dor indizível. Os crentes, para explicar minha chegada em momento tão crucial, poderiam invocar o provérbio italiano segundo o qual “coincidência é o meio utilizado por Deus para permanecer anônimo”, enquanto os agnósticos atribuiriam o episódio ao “caráter lotérico e imponderável da própria vida”.

A melhor distinção entre guerra e paz consiste no reconhecimento de que “a paz é um tempo em que os filhos enterram os pais”, e a “guerra é um tempo em que os pais enterram os filhos”. Toda vez que se inverte essa lógica, como ocorreu nesse episódio triste e desnecessário, a crença num Deus onisciente entra em crise no ânimo de muitos. É compreensível que assim o seja, em face da necessidade de termos em quem tudo de bom e de ruim atribuir a responsabilidade. Essa crença constitui, sem dúvida, um dos maiores confortos do espírito. 

Do casal Helena e George Carvalhal pode-se afirmar não haver outro mais honrado, generoso e temente a Deus, como é da avaliação unânime de quantos o conhecem. Figura nos anais da decência a devolução que George fez aos cofres da Prefeitura de Salvador, na gestão de Antônio Carlos Magalhães, o avô, dos salários de um ano, simplesmente, porque lhe mal informaram não poder acumular dois proventos, simultâneos do poder público. Fê-lo, mesmo contrariando o conselho do oficial do Exército, no 19 BC, a cujo comando, como médico, obedecia. A paz de sua imprescindível consciência cívica falou mais alto do que as maciezas decorrentes de recursos de cuja lisura desconfiava. As múltiplas manifestações de conforto que recebeu vieram impregnadas do reconhecimento dessa honradez olímpica.

Tomemos, ao acaso, uma pequena parte da longa mensagem que, por nosso intermédio, a ele encaminhou seu exemplar colega de profissão, o médico Aramis Ribeiro Costa, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, além de sobrinho querido do legendário Adroaldo Ribeiro Costa, pai da Hora da Criança e autor do incomparável Hino do Esporte Clube Bahia:

“Conheci Carvalhal quando eu terminava o meu curso médico, e me preparava para enfrentar essa difícil estrada que já dura quarenta e cinco anos, uma estrada que Carvalhal conhece tão bem, e que é a de tentar afastar doenças e mortes na vida das pessoas, ainda que por um tempo, porque um dia cada um de nós tem o seu inevitável ponto final... ... No sexto ano médico, mesmo ainda sem o diploma, fui trabalhar com funções de pediatra na Clínica SEMPRE... ...De Carvalhal, guardo a lembrança de um profissional competente, íntegro, mas, sobretudo, de um homem bom e educado, simpático e afável, que tinha o respeito e a estima de todos que o conheciam. Imagino a tristeza imensa que, neste momento, deve inundar o bondoso coração dele e de sua companheira da vida inteira, a mãe de Carlinhos que eu conheci menino, muito orgulhoso do pai”.

Este episódio consolida em meu espírito o mistério insondável sobre o que somos, de onde viemos e para onde vamos.


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