Uma crise muito útil

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
04/09/2019 20:54

   

Aos queridos amigos Margarida e Valdenor Cerqueira

Segundo o site da CBMM – Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – empresa com sede em Araxá, Minas Gerais, e marcante presença na Europa, Ásia e América do Norte, o Brasil reponde pelo fornecimento de 95% do consumo mundial de nióbio, porque o Canadá usa internamente sua pequena produção. Apesar dessa posição privilegiada, o País não vem obtendo os benefícios compatíveis com o significado desse estratégico minério para a indústria contemporânea, objeto de escandaloso contrabando e subfaturamento que evadem parcela majoritária da receita potencial brasileira. Para pôr fim a panorama tão prejudicial às finanças públicas, o Governo Federal deveria, ele próprio, exercer o monopólio na exportação do produto, segundo a opinião majoritária dos especialistas, uma vez que não existe cotação oficial desse minério, apto a elevar, de modo exponencial, a eficiência de quase tudo que é fundamental para a vida moderna, a exemplo da informática, indústria aeroespacial e de armamento, estradas, ferrovias, meios de transporte e construção civil, pontes e arranha-céus. A adição do nióbio ao aço resulta num produto muito mais resistente e mais leve, usado, também, nas indústrias de petróleo e em extensos gasodutos para o transporte de grandes volumes em alta pressão. A redução no consumo de combustível por todos os meios de transporte, que passam a ser mais fortes e mais leves, proporciona sensível redução da emissão do gás carbônico em escala planetária. Tudo isso com sensível redução de custo. 

É preciso dizer mais para enfatizar a importância desse produto para o Brasil no jogo de forças da economia e da geopolítica mundiais?

Tamanha riqueza está localizada no territorialmente grande município amazonense de São Gabriel da Cachoeira, também conhecido como Cabeça do Cachorro, com 109.185km², com uma pequena população de pouco mais de 40 mil almas, situado na fronteira com a Colômbia e Venezuela. Sua exploração foi objeto de um leilão que não se efetivou diante do disparate entre o valor de sua avaliação oficial em 600 mil reais, a preços de 1997, e a constante da denúncia encaminhada às Forças Armadas, da ordem de um trilhão de dólares! O episódio ocasionou a permanente instalação em São Gabriel da Cachoeira, pelas Forças Armadas, de uma brigada militar para defender o nosso nióbio. Vem de longe o compreensível assédio estrangeiro sobre nossas riquezas, em razão de nossa incompetência histórica em explorá-las! 

A verdade é que diante do poder competitivo desse minério todos os demais parecem pequenos, inclusive o petróleo, coisa que só recentemente passou a ser objeto de conhecimento e discussão por setores mais amplos da sociedade tupiniquim, num país que foi tomado de assalto por grupos políticos reputados os mais corruptos da história humana. Daí a crescente percepção de que obedece a propósito ideológico a manutenção dos baixos níveis educacionais praticados no Brasil recente, o que se torna muito grave, em razão de vivermos na sociedade do conhecimento.

Essa longa introdução vem a propósito da discussão planetária, ora em curso, sobre a questão da Amazônia, a soberania sobre ela das nações que a sediam, o interesse internacional nela, em face do seu arguido significado, no longo prazo, para a sobrevivência humana. As grandes riquezas naturais que encerra motivam a cobiça sobre suas reservas de gás natural, diamante, ouro, ferro, bauxita, estanho, manganês, alumínio, cobre, zinco, níquel, titânio, cromo, prata, platina, paládio, ródio, tungstênio, tântalo, zircônio, urânio e muito mais, gerando uma guerra de desinformação com o propósito de manipular a opinião pública, massa de manobra do discurso populista que se aproveita do despreparo educacional de largas parcelas da população brasileira e mundial.

Se, no curto prazo, a altiva reação do governo brasileiro a tentativas de nos impor regras de comportamento sobre o que nos pertence gera reações retaliatórias, estamos convencidos de que, ao assentar da poeira, o Brasil sairá fortalecido, protegendo a biota amazônica, mas cobrando das nações industriais parte do ônus que lhes cabe para que abdiquemos de parcela ponderável de nossos interesses, em favor do bem-estar geral. 


Compartilhe