O circo da política é outro

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
02/12/2021 21:57

   

É maldade atribuir ao circo qualquer semelhança com o Brasil. Mesmo considerando que o Congresso administre um orçamento secreto; que o PL, do insuspeito Valdemar Costa, passe a dar as cartas no país; e que o STF acabe de ganhar um ministro, cuja veia poética brindou-nos com uma pérola: “Um passo para o homem e um grande salto para os evangélicos”. Comovente! Trata-se de uma paráfrase à magnífica “Um passo para o homem e um grande salto para a humanidade”, dita por Neil Armstrong, ao tornar-se o primeiro humano a pisar na lua. A inspiração do “terrível” evangélico André Mendonça ilustrou bem o tamanho de suas pretensões. Pegou um símbolo da ciência, embrulhou no alegórico Antigo Testamento e reduziu o universal conceito de humanidade ao limitado “meus fiéis”.

O circo tem a idade do Mundo. Ou, se preferir, a idade do Homem. Os primeiros vestígios vêm da China de cinco mil anos atrás: desenhos rupestres mostram acrobatas, contorcionistas e equilibristas se apresentando para autoridades monárquicas; mais tarde, o circo ganha contornos espetaculares no Império Romano com torneios de gladiadores e confronto de animais; e assume no século XVIII, na Grã-Bretanha, o formato conhecido hoje, com atrações diversas, como palhaços, saltimbancos, trovadores, ilusionistas, animais e anomalias como lobisomens e mulheres barbadas - já banidos. O objetivo era promover emoção, surpreender e fazer rir. Por mais hilário que o país tenha se transformado de 2016 para cá, está longe da criatividade dos espetáculos circenses. O Brasil perdeu a graça.

Quem vai ao circo para ver suas histórias tem muitas outras para contar. Eu tinha uns cinco anos quando a primeira imagem dele foi gravada em mim. Morávamos na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, e os fundos da casa dava para uma ribanceira e uma enorme área livre. Parques de diversão e circos se revezavam no local. Ficar ali era como estar no Coliseu. Os fundos do circo, por onde entravam e saíam as atrações, estavam voltadas para nós, permitindo ver quase tudo: mocinhos e bandidos, em seus cavalos, trocando tiros, num entre e sai frenético; animais sendo levados e retirados; os malabaristas e trapezistas se aquecendo; e os palhaços aos tapas e beijos. Eu e meu irmão ouvíamos as músicas, os apupos, os aplausos. Não víamos o que acontecia no picadeiro, mas imaginávamos.

Em todas as formas de arte, o circo está presente em musicais, pintura, teatro, cinema e literatura. Uma das imagens mais lindas está em “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marques. Ele narra o momento em que o Coronel Aureliano Buendia, diante de um pelotão de fuzilamento, lembra-se da tarde em que o pai o levou para conhecer o gelo, uma das atrações do circo que chegara à Macondo. O velho abraçou-se à pedra com reverência, como se ali estivesse algo raro e imaculado. O pequeno Buendia não sabia se ria ou se chorava. Na Macondo de minha sogra, por exemplo, em Rio de Contas, interior da Bahia, o mesmo frenesi acontecia com a chegada do circo. Um palhaço, de pernas-de-pau, atraia a garotada para anunciar o espetáculo. Quem ganhasse um carimbo na testa, entraria no circo do “Palhaço Pelanca” de graça. Ela e o irmão não tinham mais testas para carimbar.

Das expressões voltadas ao público, o circo talvez seja a que mais renasce, se reinventa, perpetua-se e sofre. Nem tudo é como o “Cirque du Soleil”, cuja beleza plástica e precisão de movimentos desafiam a lógica do circo, nômade e irreverente por excelência. Lembro-me, em Nova Iguaçu, no Rio, lá pelos anos 1970, de uma fila de crianças aguardando para trocar gatos por ingressos. Os animaizinhos, descobriu-se mais tarde, eram servidos aos leões. Penúria total. É o lado triste de um fenômeno milenar, que alegrou a tantos de nós. Vê-lo associado a momentos ruins causa melancolia incomum e não merecem ser reverenciados. Por essas e outras, circo e Brasil não combinam. O risco de sermos jogados aos leões nunca se arrefece em nosso país. E nem precisa de ingresso. Um Fake News basta.

*Cláudio Pimentel é jornalista.

Compartilhe       

 





 

Mais de Claudio Pimentel