O preço que estamos pagando nesse Brasil cheio de ódio

Por Paulo Roberto Sampaio*


Tribuna da Bahia, Salvador
28/06/2021 21:30

   

O relato é da articulista Martha Medeiros. Uma crônica desse cotidiano nefasto que vivemos, onde o ódio transborda. Onde 270 policiais são mobilizados com ajuda de helicópteros, cães farejadores, drones e todo um aparato policial por 20 dias para caçar e matar o criminoso Lázaro Barbosa, mas não se sabe até hoje, 2 anos depois, o paradeiro do empresário e comerciante  Paulo Cupertino Matias, que segue foragido acusado de matar o ator Rafael Miguel e a família dele,  pai e mãe, em 9 de junho de 2019, só porque o jovem queria namorar com a filha dele.

Incluído na Difusão Vermelha da Interpol e primeiro nome da lista dos criminosos mais perigosos e procurados de São Paulo, Cupertino segue leve, livre e solto, quem sabe por ser este frio assassino, um empresário e comerciante, e Lázaro, um “João ninguém”. Quem sabe, por isso, as tropas policiais não mostraram até hoje a mesma eficiência nem o mesmo empenho no caso Cupertino.

Mas voltemos ao relato da cronista Martha Medeiros. Conta ela a agonia vivida por um amigo, nesse  Brasil cheio de ódio e de ressentimentos, narrada numa ligação telefônica:

"Ele telefonou de manhã cedo e me assustei: ué, só trocamos WhatsApps. Telefonemas estavam reservados para os aniversários ou para alguma tragédia pessoal. Como não era meu aniversário, me preparei para o pior. Alô. Ele estava arrasado, havia rompido uma relação. Não com a namorada, nem com o filho. Na noite anterior, discutiu feio com um grande amigo e se desentenderam de vez. O passado em comum não conseguiu evitar o fim. Nunca imaginou que chegaria a esse ponto por causa de política".

E segue Martha com seu relato  dessa inacreditável história narrada pelo amigo:

 “Não sou nenhum radical, você sabe” — começou me dizendo — “mas cheguei ao meu limite. Desde moleques, éramos dois idealistas, comíamos e bebíamos livros, lutávamos contra o moralismo, viajávamos de carona pelo Brasil conhecendo praias lindas e cidades miseráveis, vimos a condição precária de tanta gente. As cenas chocantes de tortura que assistíamos em filmes nos revoltava, queríamos mudar o mundo! Inocentes, claro, mas o valor que dávamos à justiça, à vida e à igualdade era inegociável. E, supunha eu, vitalício".

Mas, pelo visto e pelo relato de Martha, que tornou-se um ombro para o desolado amigo, tudo acabou, e por conta dessa maldita polarização que prevalece hoje no Brasil. Valem mais o ódio e os confrontos ideológicos, conforme descrito por esse personagem do cotidiano, agora de cabelo branco, que as propostas de governo, erros e acertos de uma gestão que carrega no seu bojo homens sérios e competentes, com boas propostas para a nação, mas também algumas figuras caricatas que acabam desgastando a imagem do próprio governo.

"Fui a escolhida para o desabafo – relata Martha - porque, semanas antes, havia comentado que, apesar do abismo aberto no país em 2018, eu ainda acreditava que as amizades formadoras, aquelas que se cristalizaram na infância e adolescência, não deveriam ser desfeitas pela polarização. Manter o laço com quem nos viu crescer e que repartiu vivências muito íntimas é uma espécie de seguro-emocional. Amizade verdadeira é um alicerce, uma maravilha do mundo antigo, quase  um marco zero existencial. Até agora, por sorte, não tive um embate violento e definitivo com ninguém que fosse especial para mim. Nas redes é outro papo, as pessoas se exaltam e, se o vínculo é fraco ou inexistente, tchau e bênção. Mas é muito doloroso colidir com um amigo querido que ainda acredita que a crise é entre esquerda e direita, que se posiciona como se houvessem dois extremos em disputa, quando não há. Nossos políticos podem ser malandros, safados, frustrantes ou coisa pior, mas atuam na mesma, são todos discutíveis”.

E arremata Martha com o seu sentimento, que em alguns momentos é também meu, quando me deparo com amigos dos dois lados, que parecem cegos pelo calor de uma disputa onde a razão passa longe e só existe a verdade que pregam ou que vêem.

“O obscurantismo é indiscutível. Alternativa suicida. Era mesmo uma tragédia pessoal: meu amigo ligou para falar sobre a morte do afeto, fulminado pela glorificação do absurdo. Minha defesa pela manutenção dos laços entre pessoas discordantes não surtiu efeito dessa vez. Ele perdeu um irmão em vida, o que é sempre triste. Para atenuar, combinamos de reduzir a troca de WhatsApps e nos telefonarmos mais” – finalizou Martha.

*Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna e escreve neste espaço quinzenalmente às terças-feiras.

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