O sonho de Luther King para a Bahia

Por Rodrigo Daniel Silva*


Tribuna da Bahia, Salvador
10/05/2021 21:12

   

Um dia antes de ser morto em abril de 1968, o reverendo Martin Luther King foi à cidade americana de Memphis, e proferiu o conhecido discurso “Eu estive no topo da montanha”. É verdade que o discurso é menos famoso do que o “I Have a Dream”, mas é tão belo quanto. Na sua exposição, o reverendo afirma que, se estivesse no princípio do mundo e o Todo-Poderoso o perguntasse: “Martin Luther King, em que época você gostaria de viver?”, ele faria uma viagem mental por diversos tempos históricos, e concluiria: “Se o Senhor me permitir viver apenas alguns poucos anos na segunda metade do século 20, ficarei feliz”.

Líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, o reverendo em nenhum momento da fala cogita viver na Bahia, mas, se o Todo-Poderoso o tivesse permitido nascer aqui, em nosso tempo, King não seria feliz. Aliás, se aqui morasse, correria o alto risco de ser morto em uma intervenção policial. Dados da Rede de Observatórios da Segurança divulgados no ano passado mostram que, de cada 100 baianos mortos pela violência policial, 97 são negros. O estado está entre os que mais matam no país, resultado de uma política de segurança pública que tem se mostrado equivocada.

Ao analisar a segurança pública no estado, o sociólogo Luiz Cláudio Lourenço me disse, em uma entrevista em janeiro de 2017, que os governos petistas deram prioridade "à captura e à morte de lideranças ligadas ao tráfico de drogas, que se entendem como bandidos perigosos”. E a maioria das vítimas acaba sendo os negros, pois, são eles que têm recebido, como diria King, “um cheque ruim, um cheque que volta com o carimbo de ‘sem fundo’”. No final do ano passado, o governador Rui Costa trocou o secretário da área, que estava há quase 10 anos na pasta. A mudança ocorreu após a Justiça mandar afastá-lo do cargo por ser investigado, e não porque Rui quis alterar a política de confronto adotada nos últimos anos. Prova disto é uma declaração da semana passada do governador. "Vou meter polícia aí. Não vou comer pressão de traficante", disse ele, durante visita a um terreno onde um complexo escolar será construído em Ilhéus.

Os governos do PT na Bahia nunca quiseram encarar o problema da segurança de frente. O que pode custar um preço eleitoral em breve. Optaram, até aqui, por varrer o assunto e esconder debaixo do tapete. Desconhece-se, por exemplo, qualquer política antidrogas no estado. Afinal, pôr recursos em instituições sociais de aliados não pode ser considerada uma política pública. Políticas de redução de danos, como as adotadas nas gestões de Fernando Haddad e Bruno Covas em São Paulo, poderiam ser implantadas aqui, mas não vemos qualquer esforço neste sentido.

A morte recente do tio e do sobrinho após um furto em um supermercado em Salvador não mostra apenas que os negros são as maiores vítimas da violência urbana, mas também a perda de confiança no poder punitivo do Estado. Quando o Estado não funciona se recorre ao “Estado Paralelo”, e parte-se então para uma barbárie.

Na próxima quinta, se completa 133 anos da Abolição da Escravatura, mas, apesar de tantos anos, como diria o reverendo, o negro permanece “isolado numa ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material”. “No entanto, recusamos a acreditar que o banco da justiça esteja falido”, diz ele, “recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação”. Luther King tinha o sonho de dias melhores para o seu país, e teria o mesmo para a Bahia se aqui vivesse.

 *Jornalista


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