Neto, Bolsonaro e o Democratas

Osvaldo Lyra


Tribuna da Bahia, Salvador
31/05/2019 08:32

   

Às vezes, a política tem uma dinâmica difícil de ser compreendida por nós, meros mortais. Nos tempos áureos do PT, mais precisamente na eleição da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2010, o ex-presidente Lula chegou a vociferar que o Democratas iria ser exterminado do mapa. “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”. E quase foi. Mas, como a política muda de perspectiva como mudam as nuvens, o DEM, que outrora se chamava PFL, não só sobreviveu aos ataques como passou a ser o principal aliado do governo Jair Bolsonaro.

Apesar de dizer que não, o partido hoje funciona como o MDB funcionava para o PT, como uma espécie de parceiro estratégico, indispensável para a estabilidade no Congresso e para a aprovação de matérias. Apesar de ocupar três ministérios importantes no governo, o DEM, que não integra “formalmente” a base do governo, comanda a Câmara dos Deputados e o Senado, com o deputado Rodrigo Maia e o senador David Alcolumbre. Tem ainda nos quadros do partido o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, responsável pela articulação política do Planalto. Lorenzoni, inclusive, que causou espanto em muita gente ontem, ao anunciar o seu desejo de ver o presidente Jair Bolsonaro retornar para os quadros do Democratas.

No entanto, diante da instabilidade que ronda o governo central e a incerteza sobre o sucesso da gestão, os próprios democratas trataram de se antecipar e colocar panos quentes nas elucubrações, temendo um efeito devastador sobre o partido no próximo ano. “Nós vencemos e hoje temos na Presidência um ex-filiado do PFL, um ex-filiado do Democratas, que olha para o nosso partido com imenso respeito. E, porque não dizer, com o olho de quem gostaria de voltar para casa”, afirmou Onyx. Perguntado se já tinha conversado com o presidente Bolsonaro sobre a hipótese dele mudar de partido, Onyx respondeu: “Não. É um sonho meu”.

Diante do episódio, o presidente ACM Neto procurou não render a conversa. Para ele, este tipo de especulação não ajuda o país. “O próprio Onyx declarou depois que se tratava de uma manifestação dele (Onyx). E não do presidente Bolsonaro. Obviamente, ele tem todo o direito de manifestar como o fez. Agora, não se trata de uma manifestação do presidente. Portanto, deve ser tratado com todo o cuidado porque isso geraria especulações, que, neste momento, não ajudam para o avanço das reformas do país. Assim, estou relativizando porque o próprio ministro, depois da convenção, disse que era uma manifestação pessoal, dele. Se fosse do presidente, seria outra história. Ai sim iria avaliar dentro do partido. Mas não sendo, não tem porque alimentar esse tipo de especulação”.

Para o ministro, Bolsonaro foi escolhido para transformar o Brasil e “dar consequência a aliança liberal conservadora” que o DEM sempre desejou para o país. “[Ronaldo] Caiado, essa é nossa chance. Renasceu a centro-direta do Brasil, que por anos foi visto pela mídia como algo que não era adequado porque não defendia a bandalheira”. O ministro-chefe da Casa Civil também afirmou que o seu partido já vota com o governo em 98% ou 99% das vezes no Congresso, “o que mostra de forma inequívoca” que o DEM está alinhado à gestão de Bolsonaro, mesmo que não faça parte, formalmente, da base aliada na Câmara e no Senado. Com isso, como disse mais acima, o partido, que por pouco não foi varrido do mapa pelo ex-presidente Lula, agora esbanja vitalidade e endossa a relação entre o Planalto e o Congresso, sendo cortejado, numa posição de destaque no cenário nacional.


*Osvaldo Lyra é editor de Política da Tribuna e escreve neste espaço às sextas-feiras.


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