Tem espaço para o negro no poder

Osvaldo Lyra


Tribuna da Bahia, Salvador
13/09/2019 09:17

   

Uma pergunta que volta e meia aparece nas rodas de conversa em Salvador: por que mulher não vota em mulher? E por que negro não vota  em negro na capital baiana? Com uma população majoritariamente negra e comandada por mulheres, qual o motivo de não termos mais mulheres ocupando espaço nos parlamentos (federal, estadual e municipal), e qual o motivo de não termos mais negros, homens e mulheres, no executivo e no legislativo? Apesar de antigo, um movimento tem se formado agora com mais força, desde que Vovô do Ilê resolveu encabeçar a luta por uma candidatura negra na próxima eleição em Salvador.

Numa entrevista exclusiva à Tribuna, Vovô, respeitado pelo trabalho de 40 anos à frente do Ilê Aiyê, admitiu que queria ser candidato a prefeito na próxima eleição. Impulsionado por sua trajetória de lutas e defesa das causas da população negra da cidade, Vovô passou a encabeçar o movimento, originado na Bancada do Feijão, no tradicional Feijão de Alaíde, no Pelourinho, em que prega a apresentação de uma candidatura a prefeito que dialogue diametralmente com a população composta por mais de 84% de negros e afrodescendentes. Além dele, outros quatro nomes se colocam à disposição para a disputa. Entre eles, está o vereador do PT, Moisés Rocha, a ex-diretora do Ceafro, Vilma Reis, a deputada estadual Olívia Santana (PCdoB) e o vereador Silvio Humberto (PSB). 

Durante debate realizado na última segunda, no Polêmicas Contemporâneas, na Escola Politécnica da Ufba, encabeçado pelo professor Nelson Pretto, ficou explicito o peso do movimento e a necessidade da construção de um projeto comum, que permita que apenas um ator, dentre os nomes colocados, encabece a candidatura ao Palácio Thomé de Souza. O entendimento geral, sobretudo, dos representantes do Movimento Negro, é que só tem espaço para uma real candidatura negra na capital baiana. Não vale a pena lançar dois ou mais candidatos e dispersar a atenção do eleitorado. A meta é tentar convencer a população soteropolitana sobre a necessidade de votar em algum candidato que consiga transformar, em projetos e ações, as demandas e problemas da sociedade, formada majoritariamente por negros.

E são problemas de toda ordem. Falta saneamento básico, geração de emprego e renda, uma saúde de qualidade, educação pública que atenda a demanda dos soteropolitanos e de quem escolheu viver aqui. Por mais avanços que se tenha obtido com a gestão do prefeito ACM Neto, os integrantes da Bancada do Feijão dizem que é chegada a hora dos negros tomarem o poder. Seria uma nova Revolta dos Alfaiates, com a construção de um projeto de governo que priorize a população mais desassistida do município. Muitos participantes do Polêmicas Contemporâneas externaram, inclusive, que o preconceito é tão marcante na sucessão da capital baiana, que ninguém pergunta, por exemplo, sobre o projeto de governo do provável candidato Guilherme Bellintani, que é branco. “E por que nós temos que apresentar um programa de governo tão antecipadamente?”, questionou o professor de Direito da Ufba, Samuel Vida, ao afirmar que um projeto de gestão deve ser estruturado a partir de pilares que atendam às principais demandas da sociedade soteropolitana. E isso, lógico, durante o processo eleitoral e um eventual governo, caso consigam vencer a próxima eleição. A conferir. 


*Osvaldo Lyra é editor de Política da Tribuna e escreve neste espaço às sextas-feiras. 

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