Moises Rocha: o nome do PT com a cara de Salvador

Osvaldo Lyra


Tribuna da Bahia, Salvador
28/06/2019 10:16

   

O PT governa o estado há 12 anos, mas nunca comandou os destinos da prefeitura de Salvador. Já chegou a bater na porta do Palácio Thomé de Souza, mas, em todas as tentativas, não teve o êxito desejado. Para a eleição de 2020, quatro nomes do partido já se colocaram à disposição do GT (grupo de Trabalho criado para tratar do assunto). Desejam o posto os deputados federais Valmir Assunção (sem base na cidade), Nelson Pelegrino (com a imagem desgastada pelas quatro tentativas sem sucesso), Robinson Almeida (deputado estadual sem ligação forte com município) e ainda o deputado e ex-secretário de Saúde, Jorge Solla (pouco conhecido na capital baiana). Carne nova no processo sucessório petista, surge o vereador de Salvador, Moises Rocha, o quinto até agora que almeja. 

Criado no bairro de São Caetano e prestes a encerrar seu terceiro mandato, Moisés, que não tentará a reeleição para o Legislativo, integra o Movimento Negro, mantém relação com sindicatos e tem um intenso trabalho voltado para a classe dos trabalhadores, com destaque para os ramos petroleiro e químico. Ele surge como um nome que pode imprimir um discurso novo ao PT, que dialoga com as bases e fala a língua da maioria da população pobre e negra da cidade, sobretudo, por conhecer bem as entranhas e as dificuldades da maioria dos soteropolitanos. 

Pesa contra o ex-dirigente do Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, o fato de não ser o queridinho da cúpula do PT, além do fato de o partido ter definido se terá ou não candidatura própria, já que os petistas ainda não chegaram a um consenso sobre a questão. "Disponibilizei o meu nome para o Partido dos Trabalhadores recentemente para debater a questão da Prefeitura de Salvador. Respeito todos os nomes que foram postos, mas acredito que precisamos fazer um movimento que rompa de fato as estruturas de poder. Precisamos mostrar que, de fato, precisamos fazer diferente". E fazer diferente para Moises significa observar as carências da maioria da população, criando políticas públicas que possam minimizar as inúmeras fragilidades que existem no dia a dia dos cidadãos soteropolitanos.

Moises ressalta ainda que existe uma espécie de racismo até mesmo nos partidos de esquerda, que têm dificuldades de lançar um candidato negro. Segundo ele, a maioria dos filiados do petismo são negros. De acordo com ele, a cúpula da sigla precisa voltar a consultar as bases. "Lula, no auge, disputou prévias com Eduardo Suplicy”.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de o governador Rui Costa apoiar o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, Moises defende que o PT tem que se colocar como um partido "sem dono". "O governador pode ter vontade, mas não pode fazer o papel de dono, porque isso faz com que o PT deixe de ser PT. Não dá para o governador dizer qual será o candidato. Ele pode sugerir". E completa: "Precisamos voltar a fazer as prévias e debater a cidade, como fazíamos anteriormente. Na última eleição, em 2016, foram colocados alguns nomes de candidaturas negras do PT em Salvador. Lembro que Gilmar Santiago e Valmir Assunção colocaram os nomes, mas nem para a vice foram cogitados. Nós nem sequer fomos conversados. Sou do PT, confio no PT e nas ideologias do partido, mas não tenho nenhuma dúvida que nós, dos partidos de esquerda, temos que disputar espaços que são hegemonicamente brancos".

Questionado se existe racismo dentro do partido, ele dispara: "O meu partido é ainda o que faz eleições que para eleger o seu presidente. Mas, dentro da sigla, existem correntes, tendências. Muitas vezes têm tendências que querem caminhos mais ao centro e outras mais à esquerda. Quando essas correntes se preocupam com o domínio, com o comando, geram um problema".

Veterano na Câmara Municipal, ele já definiu que não será mais candidato à reeleição em 2020. Se diz desacreditado com o poder de influência exercido atualmente pela esquerda na capital baiana e afirma que vai voltar a trabalhar nas bases. "Quero lembrar que estamos em uma cidade 82% de negros e pardos, mas que não conseguimos ter espaço para exercer o poder”. Com esse posicionamento do vereador petista, fica a pergunta: será que os caciques petistas vão abrir espaço para um nome do partido que encarne realmente a cara da cidade? A conferir. 

*Osvaldo Lyra é editor de Política e escreve neste espaço às sextas-feiras. 

Compartilhe