Paulo Roberto Saampaio

Eleição, sim. Guerra, não!


Tribuna da Bahia, Salvador
25/09/2018 09:30

   

Como é, D. Nair? Mas de onde a senhora tirou isso?

Está tudo aqui, diante dos meus olhos - diz ela.

A senhora não acha que está exagerando?

De jeito algum - dispara ela 

A senhora viu isso onde?

Só não vê quem não quer - insiste minha septuagenária interlocutora.

Mas isso pode ser fake, D. Nair...

Vai nessa, vai nessa - sentencia ela com ar de sabedoria.

Você deve estar intrigado quem é essa D. Nair e do que ela fala com tanto receio e apreensão. Ok. D. Nair é a reedição moderna daquelas vizinhas cuvieiras que se revezavam na janela de casa para controlar a vida dos outros. Sabiam de tudo! 

Eram incheridas e fofoqueiras até a alma, mas pareciam viver na candura.

Sabiam da vizinha casada que dava seus pulos à tarde e pegava um carro suspeito no fim da rua; daquela moça bonita que só andava arrumada, com umas roupas meio depravadas e chegava em casa, na maioria das vezes, tarde da noite; daquele vizinho que gostava de tomar umas e outras e vinha pela rua trocando as pernas e, em especial, nos domingos, afiavam os ouvidos para acompanhar as brigas de marido e mulher depois da feijoada e das muitas cervejas sorvidas. 

Se a polícia aparecia, então, era uma festa e elas não perdiam por nada a partida do camburão com o brigão dentro e o choro arrependido da mulher, que embora de olho roxo, admitia gostar demais daquele homem.

Era assunto para a semana toda, com detalhes trocados por telefone ou no caminho da feira. A vizinha que morava no fim da rua, já perto do largo, complementava com os nomes e as referências familiares dos rapazes que se reuniam no fim da noite para fumar alguma coisa estranha num cantinho escuro do largo.

Pois é, assim eram as D. Nair de antigamente, mas essa minha interlocutora vive um novo tempo. Nada de debruçar na janela, trançada de grades que quase não dá para ver o que se passa em frente de casa. Isso sem contar com as balas perdidas que assustam e matam. As dores nas pernas pelas horas em pé mexericando a vida alheira migraram para a coluna e o pescoço, por conta das horas a fio mexendo num tal de celular.

O mundo dela não vai mais só até a esquina. Aquela mocinha que chegava tarde da noite sempre com um rapaz diferente, mudou de vida e nem mora mais na rua. Casou e até teve um filho. Casou com outra mulher que D. Nair viu um dia desses, de mãos dadas com ela na avenida Sete. É tudo que arremete ao passado, numa descoberta acidental.

Daí, o que preocupa D. Nair agora é a disputa presidencial. É esse clima de ódio que cerca, principalmente, a direita e a esquerda. É esse sangue nos olhos e o desejo de lado a lado não apenas de vencer o pleito, mas de exterminar o adversário, como se de um lado e do outro não estivessem milhões de brasileiros.

O ódio direcionado pelos bolsonaristas a Lula e seus seguidores parece não levar em conta que num processo democrático, o voto é que prevalecerá no final e são milhões deles que indicarão qual o modelo de gestão para os próximos 4 anos no país. 

Esse desejo de extermínio faz brotar do outro lado figuras como o lunático de Juiz de Fora, que com uma faca tentou acabar com a vida do adversário Jair Bolsonaro. E algumas centenas de quilômetros adiante estimulou um grupo de homens montados em reluzentes cavalos, a invadir um espaço de campanha do adversário, como se pretendesse pisotear todos que lá estavam. Ódio que faz com que integrantes do outro lado se armem de paus e punhos para socar o carro de um adversário (seria uma mulher) só por passar próximo a uma área onde estavam concentrados.

É esse o medo que brota na cabeça de D. Nair e ela quer dividir comigo. Que ameaça tirar nossa paz e jogar irmãos contra irmãos em sangrentas batalhas que podem acontecer pela frente. 

Foi preocupado com o acirramento da disputa em termos nacionais que o governador Rui Costa, de forma ponderada, lançou um repto aos baianos e brasileiros:  “Quero mandar um abraço especial aos eleitores da capital e do interior, independentemente da opção de voto. Temos que respeitar o pensamento contrário e os adversários políticos”, disse ele, para arrematar: “Com muita humildade e respeito, estou trabalhando para continuar sendo o governador de todos os baianos e jamais irei desrespeitar meu adversário”, complementou Rui. 

Que os maus pressentimentos de D. Nair se esgotem no Face e no Zap, de onde ela teima em não sair o dia inteiro, em busca das fofocas dos artistas e colunáveis, mas que nos últimos tempos deu lugar a essa batalha feroz pela destruição do adversário e, se possível, de todos os seus seguidores. Um primitivismo abominável.

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