Renovada alegria de fazer há 49 anos e meio a Tribuna

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
21/10/2019 07:11

   

A vida não tem sentido se não for embalada por sonhos. São eles que nos alimentam, fazem despertar todos os dias e pular da cama com um ideal. Nos oxigenam para superar cada desafio. E a Tribuna para mim foi exatamente isso: um sonho, um campo de batalha em defesa da democracia, da justiça e da verdade. A razão de ser enquanto jornalista. Um espaço para aprender e ensinar. Minha primeira e apaixonante casa. 


Aqui cheguei adolescente e encontrei a Tribuna ainda engatinhando. Tinha 5 para 6 meses de fundada. Foi como se a tomasse no colo para criar.  A Djalma Dutra nem bem calçada era. Poucos vizinhos nos cercavam. A oficina de Pernambuco, um negro forte que sabia o defeito do carro só pelo ronco do motor; o posto de seu Araújo, bem ao lado; e o bar de Pepe, quase em frente, que mais tarde ganharia vizinhos como Setenta e Carlinhos, único a sobreviver no ramo até hoje. 


O icônico Abaixadinho, onde os saudosos Jânio, Vicentão e Domingão batiam ponto com a mesma regularidade com que vinham para o jornal, chegou depois, mas virou uma espécie de "senadinho", onde as noites avançavam pela madrugada embaladas por incontáveis garrafas de Brahma. Retrato de uma era que se foi, de um jornalismo boêmio.


Uma breve passagem pelo rádio esportivo, integrando a equipe de França Teixeira e de meu querido amigo José Ataíde foi meu primeiro desafio no jornalismo, ainda adolescente, estudante do Central e aqui desembarquei. Era hora de aprender nesta Casa. E fazer. 


Daqui decolei para O Globo,  onde atuei simultaneamente como correspondente por longos 20 anos. Aqui me tornei testemunha das transformações vividas por meio século nessa  Salvador, meu amor, Bahia.

E como foi desafiador ocupar nos últimos 40 anos o cargo de Redator Chefe/Diretor de Redação (com breve interrupções para ser secretário de Estado), aqui na Tribuna. 


Testemunhar e vivenciar os bons e maus momentos experimentados nessa casa. A alegria do novo nos primeiros anos, o primeiro jornal baiano impresso em offset. Participar da luta pelo ideal de liberdade nos anos conturbados do AI5 e nós, a fazermos um jornalismo sério, independente, verdadeiro.

Nada que não nos livrasse do susto, num sombrio fim de tarde, por conta de uma charge despretensiosa de nosso saudoso Lage, gênio na arte dos cartuns, que quase o leva de camburão por ter sido mal interpretada pelos senhores censores.


Anos seqüenciados por outros tantos de luta em defesa desse nobre sentimento de liberdade de expressão, já então duelando contra a tirania regional. E a Tribuna heróica, quase sucumbindo, mas mantendo-se de pé por conta de um ideal abraçado por todos que a faziam. Ideal do seu fundador, Elmano Castro, sequenciado por Joaci Góes, Walter Pinheiro, o saudoso Chico Aguiar e mais recentemente Marcelo Sacramento. Confesso que tenho orgulho, muito orgulho de ter vivido toda essa história.


Dias de hoje, da era digital, do inseparável celular sempre à mão, quando o jornal impresso padece ante a instantaneidade da internet, ao cerco dos blogs, sites e podcasts, das lives, dos canais no Youtube, mas cujo verdadeiro cerco vem das redes sociais, do fanatismo político que se abateu sobre o país, de um ódio incontido que parece cegar as pessoas e querer calar a imprensa.


Mas nada que nos intimide, até por que, seguindo o pensamento de um autor desconhecido, "um  homem não envelhece quando sua pele enruga, mas quando seus sonhos e esperanças encolhem. Ademais, velho é aquele que considera que sua tarefa está cumprida. Aquele que se levanta sem metas e se deita sem esperança". E. definitivamente, não é o meu caso, nem da Tribuna.  


Por isso, valeu e segue valendo à pena dedicar 6, 8, 10, 12 horas por dia para fazer este jornal. Estar aqui todos os domingos. Ajudar a escrever ao longo desses muitos anos em suas páginas a história dessa minha querida Salvador, dessa pujante Bahia, desse Brasil, sempre com isenção e responsabilidade. 

Para mim, a Tribuna é isso: emoção, garra e determinação. Superação a cada dia, a cada obstáculo erguido. Há 49 anos e meio faz parte de minha vida, ou melhor, é a minha vida.  

 

 

Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna.

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