Paulo Roberto Sampaio

Neymar, Temer e o Brasil


Tribuna da Bahia, Salvador
26/06/2018 11:28

   

Ídolos no esporte tive apenas dois. Um se foi prematuramente, numa manhã de domingo, 1º de maio, numa dessas curvas da vida: Ayrton Senna. O outro segue vivo, ainda que sem os passos vigorosos do passado. Esta recluso numa cadeira de rodas, mas para mim segue o maior de todos, o eterno Rei Pelé. E nessa seleta galeria não me parece que nenhum craque ou ídolo, em nenhuma modalidade de esporte, vá ter lugar mais.

Refiro-me aos dois em tempos de Copa do Mundo, onde cada um de nós brasileiros se arvora a ser técnico de futebol para falar de um personagem único neste mundial e na história recente do futebol brasileiro: Neymar Junior. Nunca um jogador de futebol neste país foi tão amado e tão questionado, criticado ou, sei lá, invejado, odiado.

E quem é essa figura tão polêmica, em quem depositamos tanta confiança e ao mesmo tempo, tantas cobranças? Quem é esse craque que tanto veneramos, mas parece não corresponder com seus dribles, os nossos gritos e toda nossa torcida? Caros, essa caricata figura é apenas um jogador de futebol, craque como muitos outros que já vestiram a camisa da seleção brasileira, mas em momentos bem distintos.

Se fosse recorrer apenas às quatro últimas décadas poderia enumerar Zico, Sócrates, Romário, Ronaldinho, Ronaldão Fenômeno e mais um punhado de outros gênios da bola, artilheiros, goleadores, mestres dentro ou nas cercanias da área, autores de jogadas incríveis, dribles desconcertantes, gols memoráveis, alegrias incontidas e pelo menos dois títulos de campeão do mundo para o Brasil.

E o que há de diferente ou de errado com Neymar? Diria que uma coisa bem simples: o Brasil. O Brasil de Zico, Sócrates, Romário (em campo), Ronaldinho e Ronaldo Fenômeno sempre foi esse Brasil de hoje, mas a sujeira de seus políticos era jogada embaixo do tapete. A corrupção sempre existiu, mas os furtos não eram tão escancarados, não havia um Lava Jato. Os políticos não era tão desavergonhados como hoje e era possível confiar neste ou naquele. Havia uma espécie de reserva moral que se foi e nos deixou órfãos de um Brasil sem perspectiva, sem futuro.

A Lava Jato escancarou a verdadeira face de um país indecente, onde não dá para confiar em ninguém, onde os mitos, ídolos ou sei lá o que, fazedores de milagres nos campos de futebol ou nos gabinetes, onde fingiam trabalhar por um Brasil melhor para todos, só se preocupavam em encher os bolsos e saquear a nação. Saquear os cofres públicos e nossos sonhos.

E nesse Brasil tão descrente surge um menino chamado Neymar que desde o primeiro choro, ainda na maternidade, não deveria ter ganho esse nome. Foi teimosia do pai. Tinha até outro já escolhido, mas ele resolveu ignorar e escolheu Neymar. Neymar Junior. Talvez, no Brasil de hoje, melhor seria se fosse Messias, o novo apóstolo a nos guiar.

Se Neymar erra um passe é alvo de um belo palavrão, se arrisca um drible e é contido pelos birros das chuteiras de um adversário, logo é ridicularizado, vira meme na internet. Se perde um gol ou deixa de fazê-lo é crucificado. Mas por que tudo isso? Simplesmente porque o Brasil carece de ídolos, de líderes, de alguém que nos devolva a alegria, a confiança, dentro ou fora de campo.

Se é para levar no deboche e nele incluir a ira da torcida em cada queda de Neymar, o erro foi de Tite ao convocá-lo. Melhor seria ter convocado Temer para o seu lugar. Esse, definitivamente, não cai e olha que tem levado bordoadas de Joesley, da PF, do MP e até do STF e segue incólume no comando do ataque do Brasil e mais que isso: ostentando uma primeira dama que em nada deixa a dever à senhora Marquezine em termos de beleza.

Bom, mas voltando à realidade, muito da irritação, das queixas e das cobranças dirigidas a Neymar podem estar relacionadas as suas quedas em campo no confronto contra os zagueiros e meias adversários, mas caros senhores, isso faz parte do próprio biotipo de Neymar, da evolução da marcação no futebol e da tolerância dos senhores juízes. 

Sofrer em média 10 faltas, a maioria delas violentas, a cada jogo, entradas duras como a que sofreu na Copa de 2014, no Brasil, que quase o afasta do futebol, não é algo fácil de tolerar. Tá bem que em alguns casos ele apele para uma coreografia cinematográfica, mas isso não lhe tira os méritos dentro de campo. Por isso recomendo aos anti-Neymar que entendam que vestindo aquela camisa 10 do Brasil tem só um jogador de futebol, alguém que se revelou um gênio da bola e ali está para nos dar alegrias, mas é humano e também pode errar.

Se nos falta um nome para guiar os destinos dessa nação, que ele não seja caçado nos campos de futebol. Lá, eles estão para nos entreter. Em Brasília, para nos governar, para combater a violência, oferecer uma educação e uma saúde mais digna e defender os verdadeiros interesses da pátria. 

Até porque a Copa acaba daqui a 20 dias, Neymar volta para Paris e de lá, provavelmente, para Madrid e nós continuaremos aqui, tendo de tolerar Temer e suas trapalhadas até o fim do ano e rendendo orações aos céus para uma catástrofe ainda maior não se abater sobre nós, em Brasília, em outubro, provocada exatamente por esse sentimento de desespero que se abate sobre nós brasileiros a ponto de querer desaguar num simples jogador de futebol todas nossas angústias e frustrações.

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