Paulo Roberto Sampaio

Um país sem ódio, sem medo e sem preconceito


Tribuna da Bahia, Salvador
11/09/2018 09:55

   

O presidenciável Jair Bolsonaro ainda estava sendo estabilizado para ser encaminhado à mesa de cirurgia e suturas na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora na quinta-feira passada e as teorias conspiratórias já circulavam pela internet, terreno fértil para esse tipo de gente dar vazão a seus ódios e frustrações, seus medos e preconceitos.

Ninguém parece disposto a pensar com a razão, a analisar os fatos com frieza e equilíbrio, deixar que o organismo policial, a PF em especial, hoje um dos entes mais respeitados desse país, avance nas investigações.

Logo surgem as tais teorias a colocar o outro lado na ponta da história, apenas ampliando o enorme fosso que hoje divide o Brasil em dois ou mais Brasis. Fotos aparecem do nada tentando ligar a besta que atentou contra a vida do capitão Bolsonaro a este ou aquele personagem da república, a esta ou aquela pessoas, como se a obtenção de uma selfie não fosse a coisa mais fácil de se conseguir hoje em dia sem que o artista, o astro em qualquer esporte ou até o político tenha como saber quem está ali posando ao seu lado. Ou na falta dela, uma boa montagem não sirva para envenenar mais o clima que já é de tanto ódio entre irmãos.

Claro que paira uma suspeita sobre o caso. Perguntas como "de onde vem o dinheiro desse lunático que cravou a faca no abdômen do capitão Bolsonaro"? Ou " quem estaria a bancar a equipe de advogados contratados para defender o cidadão"? Ou ainda, "onde arranjava dinheiro para ter 4 celulares e outros mimos eletrônicos sem ter um emprego fixo"?

São perguntas que seguem sem resposta e haverão de ser respondidas no curso das investigações, mas as dúvidas não podem acelerar o ódio entre os lados contendores nessa refrega entre irmãos brasileiros.

E me julgo no direito de engrossar as tais teorias conspiratórias trazendo para o centro das discussões um personagem meio esquecido: o crime organizado.

Sim, e por que não? Bolsonaro fala em revogar o estatuto do desarmamento, diz que vai tratar  bandido na bala, insinua que vai conceder à polícia o direito aleatório de matar e por aí vai. E esse segmento que comanda o crime quase sem resistência do modelo atual de segurança pública no país estaria de braços cruzados, deixando que o eleitor acabe seduzido por esse discurso e conceda a alguém que pensa em agir com tanta dureza contra os fora da lei a faixa de Presidente da República?

E mais: Quem mais faz do celular uma arma e sabe estar imune, já que para essas ações o crime é por demais ardiloso, atuando até de dentro das penitenciárias? Quem mais sabe onde buscar bons advogados criminalistas e pagar generosamente num momento em que o dinheiro está tão curto para candidatos e partidos bancarem suas campanhas? Confesso que não descartaria essa linha de investigação.

Só espero que não venham culpar a vítima por esse crime. O candidato esfaqueado é, na verdade, apenas uma voz que se levantou contra esse estado de baderna que estamos a viver. Fez disso sua bandeira. Estamos colhendo o que plantamos durante anos, do que nossa sociedade semeou ou permitiu deixar brotar no jardim de nossas casas, nos morros e favelas, por atos ou omissão. E não necessariamente Bolsonaro, com seu discurso de direita radical.

Portanto, antes de sair atirando nessa ou naquela direção como se o errado estivesse sempre do outro lado, que deixemos a PF investigar cuidadosamente essa trama e de nossa parte, que façamos todos nós um mea culpa e venhamos a assumir nossos erros. A faca cravada no peito de Bonsonaro doeu em cada um de nós e sangrou o coração do Brasil, mas não o faz melhor nem pior que todos os demais concorrentes à faixa presidencial. 

Enfim, que sigamos o que diz a canção gravada por alguns dos maiores nomes da música brasileira e que prega: vamos construir um país sem ódio, sem medo e sem preconceito!


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