Paulo Roberto Sampaio

Um dilema cada vez mais difícil


Tribuna da Bahia, Salvador
18/09/2018 10:11

   

Uma contundente entrevista do coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin (PSDB), Persio Arida, um dos pais do Plano Real, concedida ao jornal Estado de São Paulo neste fim de semana, só fez jogar mais lenha na corrida sucessória presidencial. Corrida que vai se afunilando para um perigoso duelo dos extremos, a deixar o eleitor brasileiro de centro, meio encurralado.

Corrida que se depender do que gravita nas redes sociais já tem um vencedor: o "mito" Bolsonaro. Ele conseguiu incorporar um discurso bem ao gosto de uma camada desiludida da sociedade, dos anti-petistas, anti-aecistas e coisas tais, que enchem às praças a qualquer convocação.

As pesquisas o colocam na dianteira, ainda que Haddad tenha avançado bastante em sua primeira semana como candidato, mas o duelo no campo político não pode passar à margem do campo econômico, como mostrou o economista Persio Arida.

Considerado um dos mais renomados economistas brasileiros, Arida critica a inexperiência de Paulo Guedes, o guru da economia de Bolsonaro, a quem classifica de mitômano. “Ele nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz idéia das dificuldades.”

Pronto, se não faltasse mais nada para fazer as labaredas arderem nesse processo sucessório, a crítica de Arida chegou num momento crucial, onde se discute o viés político da sucessão, mas sem perder de vista a política econômica, o que mexe em nossos bolsos, que vai nos garantir mais empregos, renda e estatização ou não de nossa economia.

Como não existe inocente nesse campo, Arida admite ter divergências antigas com Guedes, que o atacou sobre sua passagem pelo BC, mas nesse embate de gigantes, o eleitor consciente é obrigado a estar de olhos e, principalmente, ouvidos abertos, ao que eles dizem.

"Do ponto de vista político, ele (Bolsonaro) está onde sempre esteve. Ele sempre comungou com a esquerda o viés estatizante e corporativo. Por isso, votou com a esquerda no passado, inclusive contra o Plano Real. Acabou de dizer que não privatizará Petrobrás, Banco do Brasil ou Caixa, pois são estratégicas, linguagem da esquerda" - diz Persio Arida.

E então volta sua metralhadora verbal para Paulo Guedes, o "mitômano na sua visão. "Ele nunca escreveu um artigo acadêmico de relevo, tornou-se um pregador liberal. Falar é fácil, fazer é muito mais difícil" - dispara Arida.

Voltando-se mais uma vez ao modelo econômico e a busca de soluções para o país, ele alerta: "Falar de sistema de capitalização na Previdência é irresponsabilidade fiscal. Ele não demonstrou como fazer. Não se entende tampouco como acabar com o déficit público em um ano".

Mas acaba admitindo o que uma parcela ponderável da população receia: o dilema de se posicionar num eventual segundo turno por um dos extremos: "Bolsonaro é um risco à democracia. No passado, várias vezes falou em fechar o Congresso. A vocação totalitária está clara. Se Haddad de fato for o Lula, é outro risco também. Alguém que incita o povo contra a Justiça, procura fazer o descrédito da Justiça e ataca as instituições é um risco à democracia, sim".

Como responsável pelo programa econômico de um eventual governo Alckmin, Arida deu o seu recado. Se carregou nas tintas, cabe a você leitor concluir.

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