Paulo Roberto Sampaio

Depois não digam que foi por falta de aviso


Tribuna da Bahia, Salvador
02/10/2018 10:56

   

A cinco dias do tête-à-tête com as urnas o eleitor brasileiro parece não ter se dado conta da grave encruzilhada em que vai meter este país, mantidas as tendências de hoje com relação à sucessão presidencial.

Como diz o jornalista Maurício Azedo, “até agora, a radicalização política no Brasil foi contida por um movimento pendular da sociedade e da elite política, mas nunca houve uma situação de tanta fragilidade do Congresso e da Suprema Corte”.

Foi..., porque o cenário eleitoral protagonizado pelos dois líderes nas pesquisas de opinião, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), um pouco pela soberba de ambos, muito pela ideologia, às vésperas do pleito, ganha características que questionam a ordem democrática do país.

O prefeito ACM Neto fez um oportuno alerta neste fim de semana  “Será que a gente precisa de um país dividido? Será que a gente vai construir o futuro do Brasil a partir de radicalismos?”, postou Neto nas redes sociais., na noite de sábado.

 Na mesma postagem, o presidente nacional do DEM reafirma sua convicção de que o povo brasileiro não deseja esse destino. 

 “Tenho certeza que não. E ainda há tempo para mudar, e ainda dá tempo de a gente escrever uma nova história pro futuro de nosso país. Porque independentemente de qual seja o resultado no próximo dia sete de outubro, nós precisamos de um país unido, onde as pessoas dêem as mãos, para que o Brasil supere definitivamente a mais grave crise econômica, social e política da sua história”

Na sexta passada, em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, Bolsonaro disse que não aceita um resultado no qual não seja o vencedor. Poderia ter sido um ímpeto de momento, a caminho da liberdade de uma cama de hospital, mas no sábado reiterou essa posição, no vôo que o levava para o Rio, num indicativo claro de que o pleito pode não acabar com a leitura das urnas.

Ontem, em entrevista ao jornal O Globo, Bolsonaro foi mais brando sobre o tema e apenas 'disse que o que quis dizer' foi que não cumprimentaria seu adversário, Fernando Haddad, caso fosse derrotado. No mínimo, uma atitude tida no futebol como anti-esportiva e pouco comum nas disputas eleitorais.

Um passo para um golpe? Ou uma desculpa prévia para uma eventual derrota? Teses golpistas se espalham de que se eleito, dispensará o Congresso, preferindo ouvir os quartéis. Ou seja: a democracia estaria por um fio. Ou pode até convocar uma Constituinte para por ordem na Casa, naturalmente, a seu modo.

Está pouco? Bem, o PT, através do seu porta voz candidato, Fernando Haddad, já cogita que, tão logo retome o poder, convocará uma Constituinte exclusiva - atente para o grifo, exclusiva - para redigir uma nova Constituição, à substituir a de 88.

Ou seja: o Congresso eleito, mas não devidamente acabrestado, seria deixado de lado e novos nomes viriam, impulsionados, naturalmente, pela força da caneta, para fazer a nova Carta, com as naturais mudanças numa Constituição que embora envelhecida, traça linhas democráticas para o país e não foi aprovada para agradar esse ou aquele partido, esse ou aquele senhor.

São os mesmos lados de antes, com os mesmos propósitos. Defensores dos dois extremos que hoje se digladiam para se apoderar do país, como em 88. A direita, à época, tentando abocanhar o poder com um presidente de sua confiança, no caso, Paulo Maluf, e a esquerda, a aproveitar a brecha para implantar um modelo socialista no país.

A Constituição de 88 teve a nobre missão de unir o país no pós regime militar e acabou aprovada por alguns dos mais ilustres homens públicos que pelo Congresso passaram na década passada, com as bênçãos do saudoso Ulysses Guimarães.

Graças à Constituição de 1988, em nenhum momento essas forças conseguiram impor seus desejos às instituições democráticas. Que não seja agora, mas o risco existe e você vai decidir com o seu voto.


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