Paulo Roberto Sampaio

Ele traduz esperança. Já é alguma coisa


Tribuna da Bahia, Salvador
23/10/2018 09:41

   

O Brasil que deve eleger neste domingo Jair Bolsonaro seu novo presidente é um país acuado pelo medo de ir às ruas, principalmente à noite, que vive o receio do desemprego ou a angústia de encontrar um novo, com carteira assinada, que espera do Estado a autoridade para tornar os serviços públicos mais eficientes e almeja espaço para crescer, seja na educação, seja como um pequeno empresário.

Traçado por diferentes estudos de renomados institutos e organizações, o perfil desse brasileiro mais se aproxima da eternamente sofrida e sacrificada classe média, mas abriga no bojo dessas agruras e desejos, fortes segmentos dos dois extremos: de uma classe C e D menos favorecida, que viveu o sonho de uma ascensão social na era Lula, mas acabou desiludida ao constatar que o estado não fez o dever de casa e tudo que lhe foi oferecido está sendo tomado, pouco a pouco, ou já foi totalmente tomado, e de uma classe A que defende os direitos à propriedade e acha que já paga sua conta, mas vive sob eterno risco de perder o que construiu.

Em síntese: prometeu-se um novo milagre brasileiro, onde houvesse fartura e harmonia numa inimaginável combinação de socialismo e capitalismo, enquanto nascia uma criatura disforme, com aparência de monstro, alimentada pelas tetas da corrupção e da inépcia administrativa, embalada por um Estado incapaz de oferecer os serviços básicos como prometido. E a conta chegou, amargamente.  

Foi essa combinação de diferentes extratos da sociedade que gerou essa massa que está a ocupar as ruas do país para gritar o nome de Bolsonaro, impávida a tudo que se diz dele ou que seus filhos e/ou aliados venham a fazer ou dizer. A um eventual retrocesso democrático ou a perdas sociais. Há um sentimento maior a dominar essas mentes de que nada de pior pode acontecer ao país depois de tudo que passou nos últimos anos e diante do que aí está.

E onde estão as maiores queixas e ansiedades de nossa sociedade? É só conferir os números ou as estatísticas. Segundo levantamento da FGV de 2017, nada menos que 68% dos brasileiros revelaram receio de sair de casa à noite, de andar alguns quarteirões no entorno da casa ou, o pior, de chegar em casa vindo do trabalho ou da escola, tendo de cumprir esse percurso, na maioria das vezes em ruas mal iluminadas. 

E foi isso, com rara sensibilidade, que o candidato Jair Bolsonaro soube captar e oferecer num discurso firme, onde autoridade e autoritarismo parecem se confundir, mas soam como um bálsamo nos ouvidos de quem busca respostas do Estado a demandas tão primária dos cidadãos. Não é à toa que com tantas outras carências no organismo público, a questão da segurança pública esteja entre as mais cobradas destas eleições.

Traço colhido também na última pesquisa do Datafolha, que registrou ainda um outro filão definido pelo seu diretor Mauro Paulino como “aburguesamento de valores” da classe média brasileira. Fenômeno nascida de uma população desiludida com partidos, com suas propostas e teses doutrinárias, jamais cumpridas e usadas apenas para reunir um grupo ávido por se beneficiar do Estado.

Números também aferidos na pesquisa da FGV que ajuda a compreender o comportamento dos brasileiros na atual corrida presidencial, virando as costas para os líderes políticos tradicionais, inclusive nas disputas estaduais, onde raros foram os antigos coronéis da velha política que lograram êxito, principalmente fora do combalido Nordeste. 

O estudo aponta que a desaprovação desses dirigentes é a mais alta da série histórica – em 2017 atingiu 86%, ante 25% em 2010. Além disso, 82% dos entrevistados disseram não confiar no governo, e apenas 14% declararam acreditar na honestidade das eleições.  

Esse grito de liberdade é que impulsionou as massas a irem às ruas gritar pelo "mito", numa derradeira corrente de forças por uma mudança no cenário nacional, mesmo tendo de fechar os olhos ou não reconhecer seus defeitos. O fim da corrupção e a busca de um modelo social mais justo valem o esforço e os riscos que o adversário tanto apregoa e se atesta em algumas falas, digamos, "pouco felizes" do capitão candidato. É que esse segmento da sociedade concluiu que o Brasil precisa de um choque e ele só virá com alguém com o perfil de um Bolsonaro. 

É esse segmento social, que cansou das maracutais da classe política e almeja crescer com suas próprias pernas, trabalhando mais e mais,  que espera que o Estado lhe ofereça condições mínimas de segurança e regras claras para o setor produtivo, que resolveu fazer de Bolsonaro seu representante em Brasília, apostando num modelo onde o setor público saiba gerir com competência e honestidade cada centavo arrecadado dos já pesados impostos, do cidadão, oferecendo serviços públicos dignos a todos os brasileiros.

Se tudo der certo, é este Brasil que veremos nascer neste domingo. As urnas estão aí para isso.

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