Paulo Roberto Sampaio

Bolsonaro, Davos e a liberação das armas


Tribuna da Bahia, Salvador
22/01/2019 11:13

   

Os principais holofotes de Davos, na Suíça, amanheceram hoje voltados para o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. O Brasil voltou a ser a bola da vez com sua proposta de governo liberal, perspectivas dos ajustes necessários nas contas públicas e venda de apetitosos ativos.

Bolsonaro levou a tiracolo seu ministro da Economia, Paulo Guedes, exatamente para melhor detalhar as medidas na área, e para reafirmar a preocupação com o combate a corrupção que se tornou endêmica no país, levou também seu ministro da Justiça, Sergio Moro.

Acertou em cheio nas duas escolhas, salpicando com o ministro das Relações Exteriores, figura chave num encontro desse porte. Se errou incluindo o filho Eduardo Bolsonaro, isso fica por conta dos críticos que haverão sempre de procurar algum erro nas decisões do presidente.

Um pouco de boa vontade e seria perfeitamente compreensivo que, com as trapalhadas em que anda metido o primogênito Flávio, nada como o conforto de um outro filho ao lado para trocar idéias e confidências. 

No campo econômico, Bolsonaro sabe que pode avançar passos importantes nessa sua primeira viagem internacional. O Brasil sempre foi tido uma pérola mal explorada e com a flexibilização prevista na exploração de seu imenso território e, naturalmente, suas reservas naturais - leia-se aí de uma forma especial suas terras produtivas para o campo e a pecuária - é certo que muita gente se anime a apostar principalmente na produção de alimentos por aqui, fazendo do agronegócio nacional o grande filão nos próximos anos.

Estaria redimido dos pecados das duas primeiras semanas, marcadas pelas idas e vindas no anúncio de medidas econômicas, não fosse um pequeno detalhe: o uso precipitado da infalível caneta Bic para decretar a volta do armamento da população civil. Valeu-se o presidente de uma consulta popular que indicaria ser esse o desejo da maioria dos brasileiros, quando na verdade a resposta ali aferida queria dizer algo mais.

O que os brasileiros querem e esperam do governo é segurança. Segurança oferecida pelo Estado, pelos homens da lei. Uma revisão no código penal que inclua penas mais duras para os transgressores e um aparelhamento das polícias civil e militar de forma a cumprir essa missão.

Transferir essa função para o cidadão comum, em especial nos centros urbanos, é um equívoco enorme. Um grave erro, embora o presidente em exercício, general Mourão, rechace essa tese. 

A pergunta, portanto, é se esse é o melhor caminho para um País dominado pela violência, com 63,8 mil assassinatos em 2017, ou 175 a cada dia, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública? E  mais de 60% desses assassinatos praticados com arma de fogo. 

Advogados, criminalistas e constitucionalistas são largamente contra ou têm restrições. Até integrantes do staff bolsonarista acham que a medida foi precipitada.

Estimular tiroteios a céu aberto, balas perdidas e confrontos armados entre vizinhos, infelicitando muitos lares onde passarão a haver armas estocadas, maridos violentos e crianças curiosas, a futucar gavetas tidas como invioláveis por desatentos pais, pode acabar sendo o saldo nefasto da medida. E de muitas tragédias. 

Pode até ser que o Brasil não experimente uma corrida desenfreada por armas e cofres, até porque um revólver ou uma pistola, algumas caixas de bala e esse possível local seguro para mantê-la custarão alguns salários mínimos, que fazem falta na feira e no mercado, todo mês,  mas há um contingente louco para que isso aconteça: o dos marginais de carteirinha, que vivem do efeito surpresa para fazer vítimas em troco de alguns míseros reais e que agora terão mais um objeto de desejo a cobiçar nas residências e estabelecimentos comerciais tomados de assalto sempre de surpresa. 

Bolsonaro, que promete discutir porte e redução de idade para a compra de armas, deveria antes desse segundo passo, ouvir e/ou cobrar do seu ministro da Justiça, Sérgio Moro, as medidas concretas e tão ansiadas pela população para dar um freio na violência, nos assaltos à luz do dia, no extermínio de motoristas de aplicativos e taxistas, de donos de pequenos mercados e comércios em geral. 

E não jogar no colo do cidadão de bem uma arma e lhe dizer, dando com os ombros: vai lá, defenda-se você mesmo, não importa se contra um, dois, três ou meia dúzia de assaltantes, mostre que aprendeu a atirar no curso de tiros e bala pra frente. 


Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna.


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