Paulo Roberto Sampaio

A reinado de Olavo está chegando ao fim


Tribuna da Bahia, Salvador
26/03/2019 07:49

   

Mimado pelo grupo bolsonarista, que o considera um filósofo e inspirador das principais teses do atual governo, o escritor Olavo de Carvalho dedicou-se nas últimas semanas a centrar fogo nos militares que atuam no entorno do presidente.

Não lhes poupou palavras chulas, bem no seu estilo e fez do vice, general Hamilton Mourão, seu alvo mais frequente. Apostou nos afagos recebidos do próprio presidente e do seu filho, Eduardo, para seguir com a língua solta, mas seu reinado parece decretado a ruir.

Ontem, o ministro general da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, resolveu dar um basta nas pataquadas do sr. Olavo e o fez num tom que bem define o grau de irritação dos militares com o tal filósofo. O taxou de desequilibrado, para na sequência mostrar o ar de desprezo do grupo com suas teses e conceitos: "eu nunca me interessei pelas ideias desse sr. Olavo de Carvalho" - disse Santos Cruz.

Poderia expressar seu descaso como elemento único a brindar o conselheiro palaciano, mas para deixar claro que sua irritação e dos militares com o citado personagem, vai muito além, disparou: "por suas últimas colocações na mídia, com seu linguajar chulo, com palavrões, inconsequente, o desequilíbrio fica evidente", disse o general.

Tido como um militar de posições firmes, embora de bom trato, o general Santos Cruz foi no episódio em questão a voz escolhida pela caserna para dar um chega pra lá no filósofo. As colocações feitas pelo escritor nos Estados Unidos, quando focou no vice Mourão, mas atingiu todo o generalato que atua no entorno de Bolsonaro, estava a merecer uma resposta dura e ela foi avaliada por vários integrantes do grupo.

Principal alvo, o general Mourão preferia reagir com deboche às falas do sr. Olavo, mas sua fala nos EUA, generalizando os ataques, acabou passando do ponto e levando os militares a um posicionamento mais duro, que teve na fala do general Santos Cruz seu porta voz.

Olavistas acham que Mourão deveria estar mais afinado com as ideias e propostas de Bolsonaro, em lugar de exprimir publicamente posições contrárias em temas polêmicos, como o aborto e a liberação de armas. 

O presidente jamais se posicionou publicamente sobre isso. Uma convivência harmoniosa entre o presidente e seu vice é condição básica para um caminhar tranquilo de um governo que ainda não chegou aos seus primeiros 100 dias.

O recado, portanto, foi dirigido diretamente ao sr. Olavo de Carvalho. Bolsonaro passa à margem do conflito, mesmo tendo devotado um carinho tão grande pelo filósofo e uma admiração às suas teses. Mas os militares não podia seguir sendo atacados sem responder à altura.

A artilharia disparada ontem pelo general Santos Cruz acabou direcionada também para o norte americano Steve Bannon, guru num primeiro instante do presidente Donald Trum, mas expurgado da Casa Branca por divergências com o inquilino mor da residência. 

Defensor das teses olavistas, Bannon seria um defensor aguerrido das teses bolsonaristas e das algumas colocações feitas pelo escritor e acabou sendo premiado pelo general Santos Cruz com um petardo: "sobre este cidadão só posso dizer que para mim ele nunca teve qualquer significado".

Se até então o duelo entre olavistas e a base militar do Planalto se travava de forma disfarçada, agora foi a voz da tropa que bradou. E em alto e bom tom! 

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