Paulo Roberto Sampaio

A verdadeira Cidade Maravilhosa agora é Salvador


Tribuna da Bahia, Salvador
16/04/2019 10:14

   

Estou pensando em reivindicar o título, que imagino vago, de Cidade Maravilhosa, que um dia foi do Rio de Janeiro, para Salvador.  Acho que nada mais justo.

Sim, porque o Rio que inspirou o poeta e fez nascer esse verdadeiro hino que é Cidade Maravilhosa, não existe mais. E falo com autoridade, carioca que sou. Não justifica o título, nem a denominação. Foi corroído, corrompido, descaracterizado. Virou uma terra sem comando, sem lei.

O Rio da boemia e do morro, do samba e da malandragem carioca, é hoje só uma miragem. Lembro do Rio das décadas de 60 e 70, nos 20 anos que passei no jornal O Globo, e por ouvir de meu pai e de amigos mais velhos, das décadas de 40 e 50. Era o Rio da boemia, onde o que reinava fora da lei era a contravenção do jogo do bicho, quase uma instituição carioca.

Rio que inspirou Vinicius a enebriado pelos passos daquela linda carioca a caminho da mar entronizá-la com o título de garota de Ipanema.  Rio onde os contraventores eram também benfeitores nas favelas e acima de tudo, grandes financiadores do Carnaval e do desfile das escolas de samba. 

Desfilavam, eles, como o mesmo garbo das passistas entre a elite carioca e receber um deles numa festa da alta sociedade era prova de prestígio. E eles retribuíam com a mesma finura e elegância.

Esse era o Rio, dos bicheiros e da malandragem. Rio onde puta tinha o seu homem e não era um cafetão qualquer. Rio onde subir o morro era a coisa mais normal e você fazia sem risco. Rio que não existe mais. 

Hoje o morro virou favela, aliás, para ser politicamente correto, comunidade, como se o glamour do nome valesse algo. O bicho perdeu espaço para o tráfico e a malandragem, para o crime.

O vazio do poder público foi deixando nascer uma cidade paralela, clandestina. O tráfico passou a impor as leis absoluto nas comunidades e sem o braço da lei, surgiram as milícias para combater este mal. Foram até bem recebidas, mas logo se contaminaram pelo crime. Começaram cobrando dos comerciantes e até dos moradores pequenas taxas pela segurança, que logo foram subindo e se tornando escorchantes. E de olho no consumo daquela gente humilde , passaram a explorar tudo que parecia economicamente lucrativo: o transporte clandestino, as motos para subir e descer o morro, a venda do gás, a instalação do gato de energia elétrica e até a sofisticação do sinal da internet e da Tv a cabo. 

Um Rio marginal estava criado enquanto os donos do poder se banqueteavam com o dinheiro público, enchendo os bolsos, a ponto de os últimos 5 governadores cariocas estarem ou terem sido presos por corrupção. Isso enquanto o funcionalismo amarga salários atrasados, mendiga por um 13o, e os serviços públicos se deterioram. Os hospitais são verdadeiras casas dos horrores, com macas espalhadas pelos corredores e pacientes a gemer, muitas vezes sem um curativo por falta de gaze e esparadrapo.

Sair às ruas virou uma arte, a arte de driblar os trombadinhas, os assaltantes e arrastões e, quando não eles, as balas, perdidas ou não. Perdidas que podem vir dos morros ou dos PMs em refrega contra os bandidos, mas hoje têm também as que vem de onde você jamais imagina que poderiam vir. 

A cada chuva a cidade se dissolve.  A ciclovia Tim Mais não honra o nome desse guerreiro jornalista. Cai mais um trecho a cada temporal. As milícias que ocuparam os morros se sofisticaram e viraram "empresas" de construção civil, sem regras ou cuidados mínimos, erguendo casas de papel, verdadeiras arapucas para matar.

Por tudo isso não acho mais justo o título de Cidade Maravilhosa para o Rio, quando Salvador está cada dia mais bela e dá exemplo para o Brasil. Em entrevista neste fim de semana com o secretario de saúde do Estado, Fábio Vilas-Bôas  pude ter um retrato dos avanços da saúde pública no estado e na cidade, onde dois hospitais estão sendo adaptados para funcionar como unidades de acolhimento e cuidados paliativos para pacientes crônicos. As macas não bloqueiam mais os corredores e a fila da regulação vai diminuindo dia após dia.

Isso enquanto Salvador encanta os turistas que nos visitam e o crime vai caindo mês a mês. Daí que, por questão de justiça, não vejo por que não transferir para essa linda cidade o título de Cidade Maravilhosa, ao menos do século XXI.

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