Paulo Roberto Sampaio

Respeite a UFBa, senhor Ministro


Tribuna da Bahia, Salvador
07/05/2019 12:14

   

Toda a comunidade acadêmica do Estado e os setores mais conscientes da sociedade, tanto no  campo empresarial como político, e neste caso a revolta surge independente de coloração partidária, seguem em transe com a mesquinhez do ato do senhor Ministro da Educação, Abraham Weintraub, de cortar 30% das verbas para as universidades federais do país.

Em primeiro lugar vale lembrar como tudo aconteceu ou qual o verdadeiro propósito da medida: atingir a Universidade Federal da Bahia, uma das melhores da América Latina, mas que precisava ser enquadrada. A medida, gestada por eventuais divergências políticas, acabou estendida num primeiro instante a Universidade Federal Fluminense, e a Universidade Federal de Brasília.

A mão de ferro com que se deu o escárnio foi tão absurda, ainda mais pelos argumentos usados, oficialmente assumidos pelo próprio Ministério para o ato, "a balbúrdia" observada no câmpus, que encurralado pela mídia e pela sociedade, o senhor Ministro foi obrigado a procurar uma saída e em lugar de revogar a portaria, fez pior: estendeu a medida à todo o sistema universitário do país, mantido com as bençãos dos recursos federais.

Pobre Brasil que tem num segundo ministro da Educação empossado em 100 dias e antes de anunciar qualquer medida efetiva para a evolução do nosso ensino, prende-se a atos tão mesquinhos. 

Fico a imaginar como deve ter sido a juventude e o período acadêmico deste senhor e dos assessores que o cercam. A própria escolha do termo balbúrdia para incriminar jovens universitários bem mostra a falta de identidade com o que se passa numa universidade, espaço plural onde jovens buscam sua formação para adiante serem mestres e doutores, grandes profissionais em suas áreas, sem que as travessuras dos tempos acadêmicos lhes tirem o saber nem o mérito.

Com muito orgulho sou cria da Universidade Federal da Bahia, primeiro em economia e mais tarde em Comunicação. Sabe, senhor ministro, esse quase setentão que aqui escreve essas indignadas linhas já participou de algumas bagunças na Faculdade, que o ilustre chama de balbúrdia e foi nesse campo democrático que consegui me integrar ao grupo e por uma razão bem simples: filho de militar, tive uma formação de centro, que mantenho até hoje, quando a maioria absoluta dos colegas, no começo da década de 70, era de esquerda. Viveria discriminado e segregado num canto qualquer na sala, sem direito sequer de ir ao diretório ou a frequentar o restaurante universitário não fosse a tal balbúrdia que nos unia independente de posições políticas ou ideológicas. 

Lembro e até hoje sou grato ao colega Emiliano José, brilhante jornalista, deputado e biógrafo consagrado, um dos expoentes da esquerda universitária à época, ter me abrigado sob seu manto de respeito por julgar, democraticamente, que cada um de nós teria e tem direito ao livre expressar de pensamento, de atitudes e comportamentos, ainda mais num ambiente universitário. Grato, Emiliano, mais uma vez. Segui com minhas posições até hoje e você com as suas e seguimos parceiros.

Concordo que alguns excessos eventualmente cometidos, em passado que não saberia precisar, hoje exibidos nas redes sociais e usados como argumento para a mesquinha vindita, deveriam ser evitados. Reitores deveriam ser alertados e cobrados com o objetivo de fazer da formação acadêmica um núcleo cada vez mais focado no saber, incluindo até mesmo a punição para atos considerados inapropriados, mas punir linearmente todas as universidades sob tal argumento é algo repulsivo.

Ontem me chegou um texto que apresentava um novo motivo para o corte das verbas: que as universidades não teriam conseguido comprovar gastos de em média 30% no orçamento do período anterior. Prefiro me abster de comentar o registro e a todos os argumentos que venham a ser apresentados daqui para frente, por mais torpes que pareçam. 

Prefiro me voltar para minha querida UFBa e lhe agradecer por tudo que me ensinou e me talhou para a vida. E desejar aos jovens que nela estudam ou que nela ingressarão um dia, que ela continue sendo a casa do saber que sempre foi, livre e democrática. Minha doce e querida UFBa! 


Compartilhe       

 





 

Mais de Paulo Roberto Sampaio