As três saídas, após ouvir as ruas

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
28/05/2019 10:09

   

O Brasil  viveu um trepidante domingo verde e amarelo. Brasileiros de todos os estados da federação foram às ruas reafirmar seu apoio às mudanças tão ansiadas pela sociedade, em especial a da Previdência e o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro.

Ainda que temerariamente, o presidente Jair Bolsonaro reuniu sua tropa e mesmo prudentemente ausente, ganhou musculatura para seguir, digamos, fortalecido em sua batalha. Uma parcela ponderável do povo brasileiro referendou suas posições e reafirmou o apoio às propostas. Seria um remédio que deu certo e o paciente amanheceu revigorado nesta segunda, mas isso não basta.

O saldo das manifestações foi positivo para o governo, isso é inegável, mas como usar esse capital daqui para frente é a questão? Bolsonaro assumiu o governo com esse mesmo capital ou até um pouco mais e passou os primeiros 5 meses de governo mergulhado em questões menores, digladiando-se com o Congresso antes mesmo de tentar o diálogo, enquanto à sua volta o governo parecia paralisado.

Os números de nossa economia são pífios, o PIB virou, definitivamente, pibinho, as expectativas do mercado são sombrias, isso enquanto alguns de seus ministros mais atrapalham do que trabalham. A confiança ontem reiterada por parcela ponderável do povo brasileiro é um indicativo de que ele segue merecendo a confiança dos que nele votaram, mas daqui para frente é hora de mostrar resultados.

A primeira pergunta que fica no ar é o que o governo fará com esse apoio popular que lhe foi reafirmado neste domingo? Usará para emparedar o Congresso ou terá astúcia suficiente para calçar as sandálias da humildade e chamar os líderes para um bom diálogo, cacifado que está pela representatividade do movimento?

Sabiamente o próprio presidente já admite que exagerou ao classificar a manifestação em defesa da educação no país como coisa de “idiotas” e mais, mais. Democracia é o espaço para o contraditório e os brasileiros que participaram daquela manifestação não são menos brasileiros que os que estiveram nessa, Quem sabe, alguns não teriam participado das duas?

É importante registrar o tom pacífico e reivindicatório de ambas, sem as ameaças próprias de embates nervosos como o momento estava a indicar. Um ou outro gato pingado se arvorou a pedir o fechamento do Congresso e do STF, embora, admitamos, silenciosamente muitos ali presentes tenham vontade de ver esse quadro instalado, para expurgar de vez a velha política e passar o Brasil a limpo. Mas o preço a ser pago nesse caso seria alto demais para que essas vozes ecoassem como brado nas ruas.

De toda forma um elemento não pode ser desconsiderado: o mundo virtual bolsonaristas continua atuante e mesmo com o presidente tornando-se vidraça, levando consigo todo o clã à exposição diante dos holofotes da mídia, quando mobilizado vai às ruas.

Verdade que podemos contabilizar algumas baixas importantes por conta do número de trapalhadas que o governo se meteu nesse tempo, mas que podem ser revertidas.  Nomes como MBL, Kim Kataguiri, Lobão, Janaína Paschoal, entre outros, evidenciaram nas últimas semanas um certo distanciamento com o modelo Bolsonaro de gerir as coisas, embora sigam simpáticos a ele. O que não os livrou de algumas bordoadas durante a manifestação.

A segunda pergunta é como o Congresso reagirá daqui para a frente? Três opções estão sobre a mesa e durante a semana as respostas começarão a vir. Poderá se encolher e capitular, assustado com o grito das ruas; poderá buscar uma pauta que não exponha fraturas entre as partes, negociando pontos estratégicos; ou a mais assustadora das opções, partirá para dar o troco, com seus líderes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre à frente e o Centrão de armas em punho na retaguarda, paralisando votações importantes e criando uma espécie de parlamentarismo branco.

Só o tempo dirá.

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