O que dizer num país de apaixonados?

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
18/06/2019 10:14

   

Estive pensando como está difícil estabelecer hoje o certo e o errado em qualquer avaliação do momento político nacional. Uma mesa de bar ou de trabalho pode virar palco de uma contenda apaixonada. A internet então virou uma grande arena onde se disputa o poder de determinar o que é a verdade, onde o bem e o mal se digladiam, sempre cada lado se julgando o bem.

Os fatos, a Constituição, o Estado de Direito e as leis, entre elas a que criminaliza quem rouba, faço questão de frisar, tornaram-se componentes secundários, partindo do princípio de que os meios justificam os fins. As certezas ideológicas alimentadas desde as eleições de outubro transformaram a razão num elemento secundário, irrelevante mesmo.

Roubar não é crime quando por trás desse roubo ou dessa formação de quadrilha para saquear os cofres públicos está um líder populista, o pai dos pobres, um semi-Deus encarnado na figura de um  nordestino que virou líder sindical e construiu uma das mais belas carreiras políticas em território nacional, até mergulhar na lama da corrupção.

No outro extremo, desconsiderar a distancia mínima da decência e da prudência entre um juiz e os acusadores de um personagem tão polêmico dessa república - e mesmo que fosse qualquer outro réu, a observação se aplica - e tudo acaba sendo aceitável, em nome de combater o mal. Rasguem-se as leis. Para por o bandido na cadeia vale tudo.

Juristas ficam rubros, advogados protestam, mas todos devem ser uns esquerdistas enrustidos ou se locupletavam da farra petistas e de seus aliados, dizem os do outro lado. E as redes sociais estão aí para referendar tudo, nessa espécie de vale-tudo, que mais lembra os sangrentos combates de MMA, embora lá ainda existam alguns poucos limites.

Daí, num cenário tão desfigurado, onde sequer um mínimo de bom senso prevalece e o julgamento já foi feito antes que você abra a boca ou escreva a terceira palavra num texto, ai de quem ousar questionar corações tão apaixonados, convicções tão cristalizadas, mesmo munido de fatos incontestáveis e de argumentos.

Será submetido a uma espécie de tribunal de inquisição, contemplado logo com uma pecha, tratado como um bolsonarista ou petista, renegado como os leprosos eram até o fim da primeira metade do século passado, pelos que, orgulhosamente, se julgam do “lado certo”. Exploda-se o Estado democrático de Direito ou os valores morais da sociedade.

Vejam só a título de uma mostra como os extremos se comportam nesse momento, ignorando qualquer lógica. Atentem ao que diz a jornalista Vera Magalhães, do Estado de São Paulo. Proponho um exercício de abstração. Suponhamos que, em vez de Moro e Deltan Dallagnol, os diálogos divulgados pelo The Intercept Brasil se dessem entre o juiz e o procurador do caso Fabrício Queiroz-Flávio Bolsonaro, que completa seis meses ainda envolto numa névoa de explicações mal dadas e de iniciativas tíbias por parte do sempre combativo Ministério Público.

Qual seria a reação do presidente Jair Bolsonaro neste caso? Como reagiria ao ler/ouvir os procuradores do caso do “garoto” ( o 01) confabulando com o juiz que, cedo ou tarde, teria de julgá-lo? Daria o mesmo apoio que deu ao seu ministro da Justiça (e ex-juiz do caso Lula)?

Evidentemente, a resposta é não. E ela pode ser extrapolada de Bolsonaro para a claque inflamada que vem defendendo Moro nas redes sociais. Vale o exercício, da mesma maneira, e no sentido inverso, como reagiriam os bolsonaristas para o caso de amanhã ou depois o tal site divulgar uma conversa de Rogério Favreto, aquele que mandou soltar Lula num domingo, confabulando com os advogados do petista, por hipótese.

Definitivamente vivemos num país de apaixonados que só enxergam o que querem. E aí, o que fazer?

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