Não está um pouquinho cedo demais, presidente!

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
09/07/2019 11:11

   

Com o empenho do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de manter a tropa sob controle, em especial aquela mais viciada a hábitos pouco ortodoxos, o Congresso se prepara para o primeiro teste de aprovação da Reforma da Previdência, duelo a ser travado inicialmente na Câmara, talvez ainda esta semana.

Fragilizada, a oposição fez o que pôde na Comissão que apreciou o relatório, tentou em última instância obstruir o processo, mas fragilizada, foi engolida pelo grupo que está convencido de que a Reforma é o melhor remédio no quadro atual.

Ficou evidente de que a oposição sozinha não vai vencer este embate na Câmara, a menos que ganhe algum reforço de última hora, consistente o bastante para reverter esse quadro, digamos assim, de alguém com o peso do Presidente da República. E parece que ele já começou a se movimentar para dar espaço a essa possibilidade.

Sábado passado, convidado para uma festa junina no Clube Naval, ele deveria escolher a roupa mais apropriada para o evento, botar até um chapéu de palha a combinar com uma camisa quadriculada e se divertir como todos os outros convidados, até porque o tempo está propício para a prudência. Mas não. Bolsonaro decidiu falar e se sentindo em casa, naturalmente, vaticinar sobre o futuro.

Esqueceu, pelo visto, do que dizia até bem pouco, coisa de uns dois, três meses atrás. Na ocasião, num discurso no Planalto, vaticinou: "…Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar. Não me sobe à cabeça o fato de ser presidente", numa clara alusão de que pretende fazer um bom governo, como aliás tem procurado fazer, mas não levar adiante um projeto de reeleição.. 

E, de repente, vivendo uma crise de amnésia, como se já estivesse com o terno da posse da reeleição na mala do carro, disparou no sábado: "Pegamos um país quebrado moral, ética e economicamente. Mas se Deus quiser nós conseguiremos entregá-lo muito melhor para quem nos suceder em 2026″

Alô, ô! Alguém ouviu falar de 2026 por aí, ainda mais pulando 2022 ? Se para você pode até parecer um ato falho ou irrelevante, numa determinada Casa em Brasília, onde se abrigam os senhores deputados e senadores e seus naturais interesses, é - aproveitando o rescaldo do período junino - como jogar gasolina numa imensa fogueira.

A fila pode ainda não estar formada, mas tem muita gente de olho nela. Potenciais candidatos a um emprego no Planalto em 2022 ou aliados de possíveis candidatos a esse tão desejado emprego, que o Presidente Jair Bolsonaro parecia demonstrar um certo desdém.

Disse e repetiu ser passageiro para ele, durante os exatos 4 anos do primeiro mandato, mas que hoje já quer transformá-lo quase que em vitalício, já que ampliado para 8 sem ao menos combinar com os eleitores, após os 4  institucionais.

Sem entrar no aspecto do merecimento, já que o Presidente terá mais 3 anos e meio para fazer e muito pelo Brasil, reeleição tem hora para ser tratada e essa, definitivamente, não é a melhor. É como acender um rastilho de pólvora e sair de mansinho.

Nos porões do Congresso, onde se confabula a bendita votação da Reforma, qualquer sinal que projete um futuro tão ansiado é um perigo. Aprovada a nova Previdência, Bolsonaro sai fortalecido a ponto de efetivamente ter o direito de sonhar com uma estada mais prolongada no Alvorada e ter de bater ponto no Planalto por longos 8 anos. Mas, e quem, mesmo não sendo oposição, não se anima tanto com essa idéia, como fica?

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deve ter tido um pico de pressão. Aliados mais ponderados também, por reconhecer não ser oportuno tratar desse assunto agora. Mas Bolsonaro é assim. Precisa de adrenalina na veia e adora viver perigosamente. Que assim seja, mas que não comprometa a tão ansiada aprovação da Reforma e o futuro do Brasil com suas declarações, no mínimo, precipitadas.


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