Esse recesso não é bom e o mercado já sentiu

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
16/07/2019 10:11

   

Por mais que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o grande general condutor do processo da Reforma naquela casa, como o batizou o próprio presidente Jair Bolsonaro, considere o adiamento da votação em segundo turno para após o recesso algo "previsível e até mais seguro, para evitar surpresas", como diz ele, o fato é que esse adiamento não foi bom, principalmente para o governo.



Maia faz o que lhe cabe. Procura mostrar segurança e tranquilidade, até porque, depois de soltar tantos foguetes quando a festa estava só começando, sabe que algumas flechas estão ainda descendo e podem lhe cair na cabeça. Mesmo havendo um claro sentimento na Câmara e no Senado de que a Reforma é importante para o país e deve passar.


Mas, mesmos aliados mais próximos de Maia e da cúpula do governo, integrantes da tropa de choque da Reforma na Câmara estimam que, passado o recesso, os votos favoráveis às mudanças na aposentadoria no segundo turno tendem a ficar abaixo dos 379 colhidos de forma, convenhamos, surpreendente na primeira votação, principalmente pela mobilização das bases. E o Nordeste é o terreno mais fértil para essa revolução.


Alguns parlamentares que costumam visitar as bases nesse período podem sentir a pressão e tremer. Isso considerando apenas uma eventual pressão popular ou de grupos organizados. Mas o risco não para aí. E o bolso coçando por mais recursos, emendas e liberação de recursos... Como fica?


Tudo o que o governo segurou  no primeiro semestre para os deputados abriu nessa semana que passou. Foi como uma barragem se rompendo, levando com ela R$ 2,8 bilhões, mas 15 ou 20 dias depois, esse socorro já estará esquecido e a sede por mais e mais recursos tende a voltar. O risco de uma desidratação maior no projeto é tão grande quanto a sede de uma parcela ponderável de parlamentares e o Planalto sabe disso.


Para os que pensam na Reforma como um dever de todos e estão aptos a votar de acordo com suas consciências, o tempo entre as votações deve ser favorável para eventuais ajustes no texto por garantir ao governo uns preciosos dias para fazer as mudanças ainda possíveis na proposta, de forma a contemplar todos os brasileiros. 


Entre os mais ponderados, mesmo integrantes da oposição, o sentimento é de que a Reforma passa, mas o mercado financeiro não é muito de se contentar com o que os políticos dizem ou prometem. Que o diga o comportamento da Bolsa nos últimos três dias, desde que o menor sinal de adiamento da votação final surgiu no horizonte.  A queda já beira os 3 pontos e há quem receie que até o tão aguardado 6 de agosto ela possa voltar aos dois dígitos, ou manter-se pouco acima dos 100 mil pontos.


Conviver com a expectativa de nova vitória governista é o que nos resta neste momento. Líderes e a equipe econômica acham que ela virá sem estresse, com números muito próximos do primeiro turno, mas para os investidores, principalmente do exterior, a quem caberia a grande alavancagem nos índices, uma dose de prudência nunca é demais, portanto os próximos dias devem ser, quando muito, de sobe e desce no mercado. Mais desce do quer sobe!

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