O melhor líder da oposição que Brasília já viu

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
23/07/2019 09:31

   

O líder da oposição em qualquer governo é aquele sujeito chato que vê defeito em tudo. Mesmo no que é humanamente impossível o Estado estar presente e intervir. É seu dever estar alerta e cobrando. Em Brasília, o líder da oposição ao governo é o próprio presidente Jair Bolsonaro. É ele quem faz de tudo para desestabilizar o governo, surge com frases lapidares e se supera em cada intervenção. E teve uma semana intensa, essa que passou, deixando o chefe do executivo em situação desconfortável em várias situações, revelando sua impressionante capacidade de expô-lo ao escárnio de uma parcela ponderável de brasileiros.

Impressionante é que esse líder é homônimo do presidente, nasceu no mesmo dia que ele, tem os mesmos pais, mesmo RG e CPF e concluiu sua carreira militar como capitão do exército. Ousaria dizer que são uma mesma pessoa, mas ainda tenho dúvidas.

Uma hora o Bolsonaro presidente parece lúcido e efetivamente determinado a dar uma sacudida neste país. Combate a roubalheira que o governo passado patrocinou ou fechou os olhos e tem planos que podem de verdade fazer este Brasil um país grande e igual para todos os brasileiros. Empolga de verdade. Mas isso parece desaparecer quando o outro Bolsonaro resolve falar pelos cotovelos e produzir verdadeiros absurdos verbais.

A semana que passou esse Jair Bolsonaro líder da oposição se superou, produzindo quase que uma pérola diária tornando o Jair Bolsonaro presidente, alvo de críticas e reparos de toda ordem, atingindo, receio eu, sua popularidade que começava a reagir positivamente.

"Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira", disparou durante um fausto café da manhã com jornalistas estrangeiros, como se o Brasil que enxerga é aquele erguido num dos palácios que habita ou das casas legislativas à volta. Bastava ir na terra onde nasceu para ver que a realidade é bem outra.

Sobre o desmatamento crescente na Amazônia, em lugar de se posicionar favorável a um esclarecimento sobre os alarmantes números, revelando a gravidade do fato, preferiu a cômoda crítica ao órgão responsável pela aferição. "A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão". Breve, novos números surgidos sabe lá Deus de onde, deverão repor "a verdade".

Mas era só o começo. O foco virou para a Ancine e nossa produção cultural de onde fez renascer a assustadora sombra da censura através de um tal "filtro" ao disparar: "A cultura vem para Brasília e vai ter um filtro sim, já que é um órgão federal. Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine". Santo Deus!

Os nordestinos entraram no samba quando ele mirou sua metralhadora giratória para os governadores da região, em especial o do Maranhão, Flavio Dino, do PCdoB, eleito como todos os demais do país, democraticamente, pelo voto do povo: "Desses governadores de Paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem de ter nada para esse cara".

Nada mais preconceituoso que chamar um nordestino de "paraíba", mas foi assim que se dirigiu a todo o povo da região. A frase é exatamente essa que você acabou de ler. Feriu o princípio republicano de governar e ainda acendeu a chama da discriminação contra os nordestinos, - baianos no meio - ao chamar pejorativamente os habitantes da região de "paraíbas", termo com o claro propósito de, pretensamente, discriminar esse povo. 

Poderia ficar por aí, mas o eficiente líder da oposição ao governo, presidente Jair Bolsonaro, estava indócil e mirou então nos assalariados, numa questão polêmica, é verdade, mas despropositada para que viesse a ser tratada nesse momento, ao se posicionar contra a multa de 40% em caso de demissão sem justa causa. "Essa multa de 40% foi quando Dornelles era ministro do Fernando Henrique Cardoso. Aumentou a multa para evitar demissão, ok? O que acontece depois disso? O pessoal não emprega mais por causa da multa". Uma opinião que não encontra coro em renomados economistas, que culpam a estagnação da economia pelo alto desemprego no país.

Falou, falou e falou o suficiente para ocupar as manchetes dos jornais, revistas, sites e blogs, mas sem o brilho que o Jair Bolsonaro presidente merece e tudo por culpa desse seu clone que, pelo visto, se delicia na condição de líder da oposição ao governo.

Fruto da onda antipetista que varreu o país na sucessão de 2018, Bolsonaro - os dois, de preferência - são figuras caricatas. Um constrói e se mostra preocupado de verdade com o país. O outro tropeça nas palavras e acaba falando o que não deve. Que tal marcar um encontro dos dois, mesmo que diante de um espelho, para por fim a esse conflito de identidade. Que faça ou façam isso pelo bem do Brasil e pronto. 


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