Na política o amanhã é hoje

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
06/08/2019 10:28

   

Em política há uma máxima que diz que o amanhã é hoje e quando abrimos os olhos, o hoje já virou ontem e não há como voltar no tempo e refazer a história, embora se tente, muitas vezes.

Isso se aplica para o longínquo 2022 e o que vai ser desse futuro tão distante, mas que começa a ser construído hoje.

Independente de ser ou não candidato a reeleição, coisa que abominava antes de sentar na cadeira de presidente, mas hoje já se sente mais confortável para esticar até 2026 sua permanência por lá, Jair Bolsonaro não deve, obviamente, ser candidato único e um novo Brasil estará desenhado até lá.

Com estilo único entre os ocupantes do ilustre cargo no Planalto, Bolsonaro angariou uma legião de adeptos e seguidores, que lêem na sua cartilha e concordam com tudo que ele diz e faz. E convenhamos, ele deu uma cara nova a esta República que merecia ser chamada de banana.

Combateu e combate a corrupção, escalou seu time conforme suas convicção, implantou o que teima em chamar de nova política e tem tomado uma meia dúzia de medidas muito positivas para o país. Problema é que seus erros, tropeços ou equívocos, verbais, acima de tudo, começam a se somar e de forma perigosa, gerando um inequívoco mal estar até para pretensos aliados.

Num corte para o cenário baiano, vejam a saia justa em que anda o prefeito ACM Neto. Para fazer contraponto ao governador Rui Costa, crítico declarado do presidente, foi até a inauguração do novo aeroporto de Vitória da Conquista, obra realizada pelo Estado, com apoio do governo federal, sem qualquer participação do município de Salvador na mesma.

Foi e posou ao lado do presidente, para na semana seguinte, ante números absurdos no corte de empréstimos para a região Nordeste - caindo de 25% para módicos 3% - encontrar argumentos para dizer que não é bem assim. Se pensou só em Salvador, correu um risco perigoso ao virar as costas para os baianos dos outros 416 municípios, onde um dia vai aparecer pedindo votos para governar esse estado.

Voltando ao cenário nacional, a questão é ainda mais abrangente e complexa. Bolsonaro segue navegando num aparente mar de tranquilidade, apesar das críticas que é alvo pela grande imprensa. Ele dá de ombros e se satisfaz em manter seu fiel eleitorado sob suas rédeas. Um eleitorado conservador e que parece afinado até a alma com teses de ultradireita, renegando temas como direitos humanos, meio ambiente, desmatamento da Amazônia, entre tantos outros, no mínimo polêmicos e delicados.

Tomados pelo compromisso de apoiar as reformas defendidas pelo modelo liberal do ministro Paulo Guedes e reconhecidamente importantes para o país, os partidos de centro e pseudos postulantes a um lugar no pódio de 2022 - leia-se aí o PSDB, DEM e o Novo, para não mergulharmos no valão dos de esquerda - acabam maculados pelas trapalhadas em que Bolsonaro acaba se metendo e salpicando sobre os aliados uma espécie de conivência com atitudes pouco ortodoxas em tempos modernos.

E daí vem a pergunta: e daqui a dois anos e meio, quando começar o processo sucessório, como essas siglas haverão de se posicionar? Que projeto alternativo esse amealhado grupo de centro terá apresentado ou apresentou e defendeu para o país, mesmo em dissonância com o presidente Bolsonaro.

É preciso não esquecer que 1/3 do eleitorado nacional segue e seguirá fiel aos métodos e estilo Bolsonaro e que ninguém ouse tentar lhes fazer mudar de direção. Problema são os 2/3 restantes, que até apoiam parte das medidas tomadas pelo capitão presidente, mas que se sentem agastados em admitir que são coniventes com um governo que nega a ciência, o conhecimento, as liberdades, que estigmatiza e persegue dissidentes, e ainda insiste em revirar os porões da ditadura com versões escalafobéticas.

Como conquistar esse eleitorado estando tão perto ou conivente com o modelo Bolsonaro de ser é o desafio que os partidos de centro têm pela frente. E desde já. Ou desde a semana passada.

Bom para o presidente que sedimentou sem maior esforço seu eleitorado, em números proporcionais ao que Lula conseguiu em mais de 20 anos de pregações enganosas, e ainda arrisca amealhar essa fatia do centro que anda perdida. Se alguém pensa em enfrentá-lo com um discurso de centro, a hora de delimitar posição é agora.


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