1/3 dos brasileiros estão sem direito a voz

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
27/08/2019 09:25

   

Os 797.847 dos eleitores brasileiros elegeram em segundo turno, no domingo, 29 de outubro de 2018 o capitão Jair Bolsonaro Presidente da República. São classificados integrantes de uma seita que o torna mito em tudo que faz, diz ou comenta, certo ou errado.

47.040.906 dos eleitores brasileiros votaram no petista Fernando Haddad e por conta disso são definidos como integrantes do bando do PT, carregando nas costas todas as mazelas cometidas pelas principais lideranças do partido, leia-se aí os escândalos financeiros desvendados pela Lava-Jato, sendo, por isso mesmo, suspeitos ao abrir a boca para comentar ou criticar o que quer que seja.


Mas há um outro grupo de brasileiros que nada tem com essa história e segue sem direito a voz, criminalizado como perseguidor do mito ou abominado por defender, por exemplo, a Reforma da Previdência, quando na verdade quer só ter direito a voz com liberdade. E não é um grupo pequeno. São 42.466.402 brasileiros que votaram em branco, anularam seu voto, ou nem lá apareceram no dia da votação. Mas são impedidos de explanar seus sentimentos, contra ou a favor ao que se passa no país.


Se criticam atos ou declarações do mito, são classificados de petistas, endemoniados, execrados, só não indo ao pelotão de fuzilamento porque ele ainda não foi instituído no país.  Se engrossam os protestos contra o fim da Lava-Jato e as manobras tramadas nos bastidores para fragilizar a atuação do ministro Sergio Moro e o combate a corrupção, são considerados integrantes da seita, retrógadas e por aí vai.


O recente episódio das queimadas na Amazônia foi um bom exemplo. Houve quem se esgoelasse para dizer que a Amazônia é nossa, como se houvesse alguma dúvida quanto a isso. É sim e vamos pular essa página. Os três grupos, neste caso, tinham o mesmo sentimento nacionalista em suas manifestações, mas alguns pontos discordantes. Os bolsonaristas, como sempre, apoiavam de forma incondicional tudo que o mito dissera, incluindo os ataques às ONGs e financiadores do Fundo Amazônico.


A turma do bando que saqueou os cofres públicos, aproveitou para descarregar em cima do presidente, logo apelidado de capitão motosserra e inimigo do meio ambiente, toda sua ira, sem uma análise mais apurada dos fatos.


E o terceiro grupo, o terço desgarrado da população, se viu, mais uma vez sem poder abrir a boca. Consciente e sem se deixar levar pelo fervor dos dois grupos litigantes, que vivem a se digladiar, como se em campanha para um hipotético terceiro turno, estava a condenar algumas declarações incendiárias do presidente, que talvez tivessem jogado gasolina na queimada, mas certo de que o que importa de verdade é o amanhã, para nossos filhos e netos e não essa guerrinha histérica que não leva a nada.

Um Brasil marginal, impedido de erguer sua voz.


Bom, até para o bem da democracia e do país, que os dois grupos que vivem a se engalfinhar tenham consciência de que o Brasil é um só e não se divide em duas partes. Há espaço para a diversidade e para pensamentos e propostas outras, que necessariamente não precisar estar atreladas ao bando nem a seita.


E que todos tenham direito a se posicionar livremente, sem patrulhamento ou condenação.

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