E agora, Jair...

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
03/09/2019 10:30

   

Publicado originalmente em 1942, na coletânea Poesias, o poema "José" de Carlos Drummond de Andrade Ilustra o sentimento de solidão e abandono do indivíduo na cidade grande, a sua falta de esperança e a sensação de que está perdido na vida, sem saber que caminho tomar.

Eternizado quando virou música, o poema de Drummond carrega em seus versos um misto de interrogação, drama e dilema: e agora, José? A festa acabou/A luz apagou/ O povo sumiu/A noite esfriou/ E agora, José!

Embora o dilema não seja tão grave assim no caso do nosso Bolsonaro, as dúvidas que tem pela frente são inquietantes, a ponto de merecer um "E agora, Jair?". Recente pesquisa do Datafolha mostra que nesses primeiros sete meses turbulentos de sua gestão ele consegue ser batido por FHC, Lula e Dilma em mais de 15 quesitos, sinal de que precisa ajustar o discurso e as ações, mas ganha folgado e com méritos em dois e de extrema importância num país saqueado por maus gestores: segurança pública e combate à corrupção. Exatamente dois dos temas que mais inquietam os brasileiros.


Seria para soltar foguetes e comemorar a afinidade com esses anseios da população, não fosse um breve senão: o que fazer com essa bendita Lei de Abuso de Autoridade, cunhada no Congresso com rigoroso capricho, como se para amenizar os efeitos da Lava Jato?


O que fazer é realmente a questão mais complexa da história para o nosso José (perdão, Jair). E aí, veta ou não veta? Quantos artigos? Dois? Cinco? Nove, como ele mesmo falou ontem? Faltam exatas 48 horas e os minutos voam. Dia 5 é seu limite para com uma canetada mandar tudo para o espaço ou parte desse tudo.

Quem conhece o estilo do capitão Bolsonaro sabe como ele está louco para mandar a tal lei para a lata do lixo. Ele, como a maioria da população brasileira - e aí inclua-se aquele terço do qual falei na coluna passada, que não votou em Bolsonaro nem em Haddad, mas tem compromissos com o país - acha uma excrescência o que ali está posto, mas tal como a fábula do Jabuti em cima da árvore, há que se levar em conta de que jabuti não sobe em árvore, nem leis são feitas pelo ascensorista do Congresso.


Se veio de lá é porque gente muito poderosa resolveu fazê-la e essa gente tem voto, representa um enorme contingente na casa e contrariar esse povo às vésperas da votação da reforma e de outros temas de relevância para o Planalto tem de ser ponderado


Bolsonaristas convictos estão certos de que a canetada será violenta, como se a desconhecer o que gira em sua volta. Problema é que deputados e senadores não querem nem ouvir falar em veto presidencial. Quando muito de um artigozinho insignificante e pronto. E nosso Jair sabe disso.


O relator Ricardo Barros (PP-PR) já deu seu recado e não fala só. Veto só na proibição do uso de algemas. Qualquer canetada além será entendida como "afronta" e o Congresso poderia não digerir bem...

Pelo Projeto de Lei, poderá ser considerado abuso de autoridade obter provas por meios ilícitos; executar mandado de busca e apreensão em imóvel, mobilizando veículos, pessoal ou armamento de forma ostensiva para expor o investigado a vexame; impedir encontro reservado entre um preso e seu advogado; e decretar a condução coercitiva de testemunha ou investigado sem intimação prévia de comparecimento ao juízo.


E é aí que reside o dilema presidencial. Nesses 7 meses no Planalto e 28 no baixo clero da Câmara ele sabe como as coisas caminham - ou empacam - naquelas casas e o Brasil não pode parar. Ele pode até vetar tudo e mostrar sua afinidade com a imensa maioria do povo brasileiro, mas sabendo que corre o risco de ter o veto derrubado nas duas Casas por um bando de caras amarradas e levar o troco adiante, a começar pelo desejo de fazer o 02 embaixador em Washington.


Não há como fugir dessa realidade. Infelizmente é assim que as coisas caminham nesse país.



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