Rui disse o que o PT já devia ter dito à nação

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
16/09/2019 22:42

   

O Brasil está tomado por uma praga. Me faz lembrar a década de 60 quando uma terrível formiga denominada saúva destruía nossos campos e plantações. E o grito de guerra à época era " ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil". Nostalgia à parte, diria hoje que ou o Brasil acaba com o radicalismo (de direita e de esquerda) ou o radicalismo acaba com o Brasil.

Num país laico por tradição, já não há espaço para as religiões de matriz africanas. Terreiros são invadidos e destruídos por pseudos integrantes de religiões evangélicas. No campo político, buscam-se nomes para esse ou aquele cargo não pelas virtudes pessoais do ou da escolhido(a), mas pelo seu grau de comprometimento com esta ou aquela religião.

E neste mesmo campo político me deparo hoje com tanta polêmica gerada pela entrevista concedida pelo governador Rui Costa à revista Veja. Um político moderno e que simplesmente procurou passar suas idéias desatreladas desse maldito radicalismo que hoje divide irmãos brasileiros em fanáticos defensores da direita ou da esquerda, como se não houvesse espaço para propostas equilibradas e ponderadas nos dois lados, sem tanto radicalismo.

E onde foi que Rui errou? E errou? Reeleito com 75% dos votos em outubro passado, só agregou mais capilaridade ao seu nome de lá para cá com a verdadeira revolução que está fazendo na saúde pública no estado com as policlínicas - 12 até aqui - espalhadas por todo a Bahia. Com as gratificações dadas aos policiais, proporcionais à queda no número de mortes violentas. Com as melhorias, ainda que tímidas, mas significativas, nos salários e preparação dos professores.

Mas neste fim de semana Rui resolveu emitir seus conceitos sobre um novo Brasil, um Brasil mais igual e plural, e quase foi trucidado pela esquerda radical, leia-se em destaque pelos xiitas do PT, como se num processo democrático não houvesse espaço para vozes que não refletissem apenas o que se lê numa encardida e ultrapassada cartilha, que não se atualiza nem se renova.

Rui estava a prestar um grande favor ao partido. A mostrar que há cabeças inteligentes na agremiação, com propostas lúcidas para este país. Não se envergonhou em admitir alguns erros cometidos pelo PT no passado e sobre eles fez suas considerações. Postura que essas lideranças agonizantes já deveriam ter assumido, em respeito ao povo brasileiro.

E o que disse Rui sobre os erros no passado?.

" Faltou perceber que era preciso dialogar com todos os segmentos sociais, mesmo com aqueles que pensam diferente. Agora, penso que nós devemos apresentar propostas concretas para que o Brasil retome o desenvolvimento. Não dá para um partido do tamanho do PT, ou simbolicamente forte, como PDT e PSB, ficar só na negativa. Seria muito positivo se essas legendas pudessem se unir para apontar saídas para o Brasil".

Ergueu os olhos sobre a América e ante esse modelo híbrido de governo que tanto infelicita o povo da Venezuela, disparou:

“A Venezuela enfrenta o mesmo momento que o Brasil, mas no oposto ideológico. Há sinais claros de que a democracia é desrespeitada e de que há agressões contra pessoas e os seus direitos”

Sobre essa fixação no Lula Livre em detrimento de um projeto de governo para 200 milhões de brasileiros, sem nunca negar o apoio ao líder e condenar sua prisão, disse:

"Não, não acho que esse é o ponto que deve ser usado pelo PT para condicionar qualquer diálogo com as oposições para formar uma frente. Mas o PT não deve nem pode abrir mão dessa bandeira. Hoje mais do que nunca está claro que Lula não teve direito a um julgamento justo".

Sobre a punição a quem mete a mão no dinheiro público, mantendo uma visão crítica quanto aos abusos cometidos na Lava Jato, pontuou ele:

"Apoio todas as medidas que busquem punir corruptos. Mas as últimas revelações mostram que essa apuração da Operação Lava-Jato foi usada com viés político-partidário. Não sou da opinião de que tudo o que foi apurado é falso ou fruto de manipulação para perseguir e condenar o PT e outros partidos de esquerda. Muitas daquelas coisas têm provas materiais. Entretanto a operação não tinha como alvo apenas corruptos, e sim filiações partidárias". 

Sobre o endurecimento no combate ao crime, mostrou uma visão que é unânime em toda a sociedade:

"Defendo o endurecimento de penas para quem tira a vida de outra pessoa, e acho que os partidos de esquerda precisam refletir sobre isso. Não é possível, sob alegação alguma, concordar que alguém que assassinou uma criança ganhará a condição de semiliberdade depois de cumprir um sexto da pena. Não há nenhuma família que se conforme com isso".

Se isso desagradou tanto a cúpula do PT ou aos radicais encardidos de um vermelho que deveria, sim, representar vergonha, já não sei o que dizer. Ou sei: parabéns, governador Rui Costa. Que outros Ruis apareçam nesse Brasil tão carente de lideranças renovadas e se espalhem por esse imenso país, com propostas equilibradas, ponderadas e menos radicais para tornar esse Brasil mais igual para todos.

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