O Brasil para as 10h para ouvir Bolsonaro

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
24/09/2019 09:50

   

Os meios políticos, ambientalistas e empresariais - e aí destaque-se o agronegócio - amanhecem esta terça-feira com aquela ansiedade própria de uma final de Copa do Mundo. Às 10 horas, o presidente Jair Bolsonaro participará, em Nova York, da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU). 

Bolsonaro falará logo depois do secretário-geral da ONU, o português António Guterres, e imediatamente antes do discurso do presidente do país anfitrião, os Estados Unidos, ninguém mais, ninguém menos que, Donald Trump, o que aumentará ainda mais a expectativa mundial para o ato.

A questão ambiental deve ser o centro do discurso do presidente que, cumprindo a tradição, abrirá o evento, mas há uma incontida expectativa sobre o tom e o que dirá Bolsonaro.

Elaborado a quatro, seis, oito ou dez mãos, algumas ponderadas, outras nem tanto assim, - para a missão foram escalados o chanceler Ernesto Araujo, o general Augusto Heleno, o sempre presente filho e candidato a embaixador do Brasil em Washington, Eduardo Bolsonaro, e o assessor Filipe Martins - o tom agressivo passará à margem, até para tentar recuperar parte da imagem desgastada nas últimas semanas.

O discurso deverá seguir três pilares: a atenção com o meio ambiente, retratada por números que colocam o Brasil numa posição relevante entre as grandes economias, a abertura de sua economia a partir do desenvolvimento calçado na matriz energética mais limpa do planeta e a democracia, aí com naturais estocadas a Cuba e Venezuela.

Ah, ainda no item meio ambiente - e aí leia-se, combate às queimadas e devastação das matas, em especial da floresta amazônica, tema mais que dominante nos últimos dias - o presidente se posicionará em defesa do Acordo de Paris. Mas aproveitará a deixa para reiterar que está aberto a parcerias comerciais que venham trazer benefícios para o mundo sem agredir a natureza.

Mas Bolsonaro será bem objetivo neste ponto. Ele vai deixar claro que cabe ao Brasil definir como pretende proteger e desenvolver a região, e que ninguém se atreva a intervir ou definir regras para a região, individualmente ou em forma de consórcio de ajuda à Amazônia, sem passar pelo crivo do Brasil.

Amparado nas boas relações vividas hoje com os Estados Unidos, se fixará nelas para dizer que o Brasil está aberto a parcerias com os quatro cantos do mundo, reforçando a importância do acordo Mercosul-União Europeia, que subiu no telhado empurrado pela Áustria, por conta das queimadas na Amazônia. Bolsonaro espera passar uma borracha - sabe-se lá se extraída dos seringais da Amazônia - neste assunto.

Para colocar uma pitada de sentimentalismo ou de respeito às origens, o Planalto incluiu na comitiva Ysani Kalapalo, uma anônima moradora de uma aldeia no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, mas simpatizante das ações do governo na Amazônia. Qual o efeito dessa "representante dos índios da região" é imprevisível. Se o representante fosse, por exemplo, o cacique Raoni o peso seria outros, mas o discurso, também. E nem tão simpático assim ao governo. 

Para quem se recupera de mais uma cirurgia para retirada de uma hérnia abdominal – provocada pela facada que sofreu na campanha eleitoral de 2018 – o presidente mostra-se um guerreiro. Apesar da ajuda de importantes auxiliares, a palavra final sobre cada linha do discurso será dele e se serve de consolo ou alívio a quem anda ressabiado com o estilo Bolsonaro, vai uma postagem recente sua nas redes sociais: vou fazer um discurso “bastante objetivo, diferente de outros presidentes. Ninguém vai brigar com ninguém lá, podem ficar tranquilos”, disse.

“Tá na cara que eu vou ser cobrado, porque alguns países me atacam, de uma maneira bastante virulenta, dizem que eu sou o responsável pelas queimadas aí pelo Brasil. Nós sabemos, pelos dados oficiais, que queimada tem todo o ano, infelizmente. Quer que faça o que? Tem”, disse o presidente.


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