Está faltando um capítulo nessa história Janot x Gilmar

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
01/10/2019 09:38

   

Não sou muito de assistir novela, aliás, raramente o faço. Primeiro porque elas coincidem com meu horário de fechamento do jornal e segundo porque não tenho paciência de ficar quase seis meses esperando para saber quem matou Odete Roitman. E correr o risco de ficar sem a resposta ou vir uma bizarra, criada pelo autor. Mas até nos enfadonhos dramalhões mexicanos exibidos pelo SBT ou nas mais sonolentas produções da Record e até da Globo, imagino que há uma história com começo, meio e fim.

Mas estou frustrado. Justo nessa novela-faroeste do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot e do polêmico ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, acho que perdi o primeiro capítulo ou um capítulo chave para entender ou dar sentido à trama. Sim, porque foge a minha inteligência que um homem com o preparo e o currículo do sr. Rodrigo Janot venha a se expor numa trama tão bizarra ( sem ser autor de novela, lembram acima?) e de onde sai duplamente ferido.

Passa a imagem, no mínimo, de um desequilibrado. De alguém que precisa, urgentemente, investigar e buscar apoio psicológico para que o surto que o abateu e que ele hoje revela, não venha a se repetir e uma tragédia acontecer, envolvendo seu desafeto Gilmar Mendes ou outro desafeto qualquer.

E, dando trela aos memes espalhados pelas redes sociais, pela imensa legião dos que "não engolem" o ministro, de não ter levado adiante seu plano e tido coragem de apertar o gatilho quando disse ter estado há dois metros dele, com o revólver engatilhado.

Brincadeirinhas de mau gosto à parte num tema tão grave para o país e que poderia ter reescrito muito da história da Lava-Jato, o que intriga mesmo é por que Rodrigo Janot decidiu abrir a boca agora e por iniciativa própria. Com tantos avanços da medicina não me ocorre que tenhamos chegado ao estágio de jornalista adivinhar pensamentos alheios, ainda mais em situações tão inimagináveis ou bizarras. Então, o que teria levado Janot a revelar por conta e risco, sem qualquer pressão, esse episódio inconcluso, quase que em rede nacional, já que o fez  a dois dos maiores jornais do país e uma revista? E incluí-lo num livro que pretende lançar na próxima segunda-feira? O que teria a ganhar com isso?

A razão da fúria, um possível ataque do ministro a sua filha, enquanto investida na condição de advogada pode até tê-lo levado ao sombrio e impensável gesto inconcluso naquele 11 de maio de 2017 ao invadir a sala reservada aos ministros no STF, uma espécie de sala do cafezinho do Congresso, onde eles se reúnem antes de iniciar os julgamentos no plenário, sacar uma pistola do coldre que estava escondido sob a beca e a engatilhar, só não disparando sabe-se lá por que.

Mas depois de tanto tempo, por que vir a revelar esse pensamento ou plano tão nefasto? É esse capítulo da novela que não assisti e estou tão frustrado.

No livro já no prelo e denominado Nada Menos que Tudo, escrito pelos jornalistas Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin, Janot narra episódios desconhecidos ao longo dos quatro anos em que esteve à frente das investigações do maior escândalo político do país. São histórias que se passam no coração do poder, envolvendo os homens mais poderosos da República e empresários influentes nos momentos mais agudos da operação. Só por isso já haveriam de despertar a curiosidade de um grande público, mas se inserir na história, arranhando de forma tão grave profunda seu currículo é algo difícil de entender.

Bastaria um breefing enumerando alguns tópicos da obra literária para logo se tornar um best-seller. Afinal, quem não gostaria de ficar sabendo de casos de comportamentos indecorosos, como o de um pedido de Michel Temer e seus aliados para que o procurador não investigasse o então deputado Eduardo Cunha, e de uma bisonha tentativa de cooptação, quando o então senador Aécio Neves, em meio ao escândalo e já na condição de investigado, teve a desfaçatez de convidar Janot para compor com ele uma chapa a fim de disputar a eleição presidencial de 2018. Há também situações de sabotagem, traição, desconfiança, intrigas e suspeitas entre os próprios membros da força-tarefa, como relata a revista Veja.

Mas Janot, no melhor estilo Alfred Hitchcock, um dos mais famosos e intrigantes diretores de cinema e que costumava aparecer de passagem em suas magistrais obras - foi assim em 38 das 52 produções -,  não se conformou com as narrativas e resolveu aparecer no filme. Fazer uma ponta, sei lá, como usado na linguagem cinematográfica, mas que lhe valeu o papel principal da obra.

Se estava precisando ganhar alguns trocados a mais vendendo o livro talvez até consiga, mas, sei não... O estrago que coleta com essa automutilação pública me parece grande demais. Por isso vou continuar tentando assistir esse capítulo da novela que pulei para entender de verdade essa nefasta trama. Ou não!


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