Que o exemplo de Irmã Dulce nos sirva de lição

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
14/10/2019 23:01

   

A canonização de Irmã Dulce, hoje Santa Dulce dos Pobres, nos leva a uma reflexão: o que temos feito pelos nossos semelhantes, pelos desafortunados, pelos que mendigam um amparo na vida, um abrigo, um leito para tratar uma moléstia ou apenas um remédio para estancar uma dor? De forma direta ou ajudando uma entidade como as Obras Assistenciais de Irmã Dulce... O Hospital Aristides Maltez....

A emoção que silenciou o país e fez esse domingo amanhecer mais cedo para celebrar a primeira santa brasileira não deve ser comparada a de mais uma Copa do Mundo de futebol conquistada ou de uma dessas vitórias passageiras no esporte. 

Ela reflete a história e o exemplo de uma mulher franzina, de 1,42 cm de altura e 42 quilos, que soube enfrentar todos os obstáculos para edificar uma obra para amparar os pobres, imbuída pela fé e pelo desejo de servir ao próximo.

Nos muitos anos que bateu de porta em porta dos que podiam ajuda-la, mesmo que com um punhado de farinha na feira, jamais fez política nem se deixou seduzir pelos afagos dos políticos. Pedia por necessidade e só. Nada para si. Seu partido era o Partido dos Pobres.

O contraste entre aquela mulher franzina e doce, com uma outra que encarnava,  forte e determinada a atingir seus objetivos em favor do mais necessitados é o que nos faz crer que nós é que nos fingimos de fracos para não cumprir com nossa missão na terra. 

Ou não? Nós, eu e você, mais aquinhoados, o que estamos a fazer pelos mais necessitados a não ser esperar que o poder pública se incumba de tudo? É inútil e sabemos disso, como Irmã Dulce descobriu desde a adolescência e tratou de fazer a sua parte. O Brasil segue desigual e injusto com os mais necessitados exatamente por isso. Porque achamos que a responsabilidade é do outro. E quando falamos em políticas públicas, ainda mais nos tempos de hoje, bem sabemos que elas visam tudo, menos dar um alento a quem menos tem. 

O Brasil que domingo festejou a introdução de Santa Dulce dos Pobres nos altares sagrados da igreja católica é o mesmo que vive quase que uma batalha religiosa entre irmãos, com o ódio aflorando a cada esquina e evangélicos radicais querendo impor a hegemonia de suas crenças, sufocando os demais credos, em especial os de origem africana.

A intolerância de alguns é clara e até aqui na Bahia, o estado mais laico do país, onde o sincretismo religioso sempre foi uma marca, ela se faz presente. Terreiros de candomblé foram recentemente invadidos e depredados sabe-se lá por quem, mas episódios tais jamais aconteceram até a década passada. 

Irmã Dulce nasceu e realizou sua elogiável obra justamente na cidade com mais negros fora da África, nossa Salvador. Católicos, batistas, espíritas e praticantes das diversas matizes africanas sempre a ajudavam porque viam nela mais que a figura de uma freira. De uma mãe. A mãe dos pobres.

Que sua elevação a condição de santa não venha a  despertar mais ódio entre irmãos nesse Brasil retalhado por imposição de uns poucos e, pelo contrário, sirva de estímulo para praticar o bem. 


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