Ponto de Vista: A industrialização do interior

Por Adary Oliveira*


Tribuna da Bahia, Salvador
21/09/2021 20:48

   

A preocupação de desconcentrar a atividade econômica que se fixou na Região Metropolitana de Salvador (RMS), impulsionando a industrialização do interior do estado, sempre foi uma preocupação dos governantes. O governador Luiz Viana Filho, ao criar o Programa de Industrialização do Interior (Prointer), idealizado por Manoel Barros Sobrinho, dizia que “a Bahia não vai ficar ancorada em Aratu” e deu início a uma série de atividades que deram começo a macha para o sertão.

Do ponto de vista estratégico é mais fácil produzir para um demandante, suprindo as suas necessidades, do que convencer as pessoas a adquirirem um bem ou um serviço novo, pelo imperativo de mudança dos hábitos de consumo. O deslocamento de uma atividade econômica para o interior muitas vezes é determinado pela obrigação de se estar próximo da matéria-prima, como no caso da mineração. Um dos projetos bem-sucedidos de exploração mineral é o da extração de minério de cobre em Jaguarari. A produção de cobre metálico se dá na usina que é alimentada por concentrado mineral importado e, apesar de localizada na RMS, perto do Porto de Aratu e das principais rodovias, ela puxa a produção mineral de Jaguarari há quase 40 anos. Sempre se ouvia dizer que houve erro no projeto mineral, que Jaguarari não duraria mais de cinco anos. Agora sabe-se que a mineração deve continuar operando por, pelo menos, mais 25 anos, correndo o risco de advir o que aconteceu no Chile, quando se descobriu, por acaso, a maior mina de cobre do mundo: Escondida. A Bahia é rica em minerais diversos, e hoje são explorados mais de 40 em seu território.

Ainda na área mineral, as empresas pequenas e médias que adquiriram recentemente os campos de petróleo na Bacia do Recôncavo, projetam dobrar a produção do óleo com emprego de novas tecnologias. Adicionalmente, as técnicas de liquefação do gás natural (GN), viabilizando seu transporte fora de dutos e a instalação de miniunidades regaseificadoras próximas ao local de consumo, abrem caminho para aumento da extração do gás associado, permitindo aumento da produção de petróleo. Como se sabe, o GN é largamente usado como combustível na geração de calor e eletricidade, sendo uma fonte mais limpa que o óleo combustível, favorável portanto na proteção do meio ambiente. Além do mais, é a matéria-prima principal na fabricação amônia e ureia, importantes insumos usados na formulação de fertilizantes.

A marcha para o interior ganhou novo impulso com o avanço do agronegócio para além das barrancas do Rio São Francisco. O crescimento da produção de soja e milho na região de Barreiras, o aumento da produção de algodão de fibra longa em São Desidério e seu distrito de Roda Velha, e as perspectivas de aproveitamento de áreas planas da beira do Velho Chico, para produção de cana de açúcar irrigada com gotejamento subterrâneo, com produtividade de até quatro vezes mais da de Sertãozinho do interior de São Paulo, nos faz acreditar que desta vez tudo vai melhorar.

E o que dizer da geração de energia eólica e solar fotovoltaica numa região onde sobra vento e não falta sol. A produção de energia elétrica por fonte limpa e renovável na Bahia já supera a energia gerada por todo o complexo de Paulo Afonso, sem o risco de sofrer apagão pela falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. A remuneração que os donos de terra estão recebendo, por cederem suas propriedades pra instalação das torres de geração, já representa um bom aperitivo. Tudo sem prejuízo da manutenção das outras culturas que tradicionalmente lhes deram sustentação.

Entretanto, de todas as iniciativas governamentais que levam esperança para o interior, a de maior valor é a de instalação das universidades em várias regiões. Elas representam a criação de centros culturais de imensa virtude. Se por um lado, contribuem para a educação e fixação de habitantes no campo, por outro lado, são embriões de futuros centros de pesquisa. O conhecimento que eles vão gerar vai fazer surgir valores que o sertão esconde e vão aparecer coisas inimagináveis para o progresso. Isso tudo vai se juntar ao ambiente de paz e bom convívio entre as pessoas, ampliando e melhorando as condições de vida que faz do sertão a área de maior ocupação rural do país.

*Adary Oliveira é engenheiro químico e professor

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